sábado, 1 de dezembro de 2012

Jonas


JONAS INTRODUÇÃO O livro de Jonas gira inteiramente em torno das relações pessoais entre Jeová e Seu servo, Jonas, filho de Amitai. Essas relações se originam numa comissão profética, da qual Jonas procurou evadir-se. Jonas descobriu que os pensamentos de Deus não eram os seus pensamentos e que seus caminhos não eram os caminhos de Deus. Mas Deus não deixou Jonas sozinho. Na primeira metade da história, Deus permite que Jonas chegue ao extremo de quase perder a própria vida, somente para em seguida restaurá-lo à posição onde ele se encontrava antes dele tentar, por meios físicos, evitar o mandado de Jeová. Na segunda metade da história o Senhor permite que Jonas chegue ao extremo da depressão mental e espiritual, somente para revelar a ele a correção essencial de Seus misericordiosos propósitos. I. A MENSAGEM E SUA FORMA A forma deste livro é a de uma peça de narrativa biográfica, semelhante (quanto ao estilo, linguagem, atmosfera e elementos miraculosos) a diversos incidentes de 1 e 2 Reis, concernentes, a Elias e Eliseu, os quais, realmente, foram predecessores imediatos de Jonas como profetas no reino do norte, Israel; e eles, à semelhança de Jonas, realizaram parte de seu trabalho em relação a povos pagãos -Elias à Sidônia, e Eliseu à Síria, enquanto que Jonas em relação a Nínive. A história de Jonas, entretanto, não é simplesmente um incidente isolado na história profética de Israel que facilmente poderia ser encaixada nos livros de Reis, onde o ministério de Jonas é mencionado (#2Rs 14.25). Mas sua mensagem é distinta e cada porção da história é relatada de forma a exibir essa mensagem. Por essa razão, o livro, encontra posição apropriada entre os profetas; diz respeito a uma revelação particular da verdade de Deus e essa revelação está intimamente relacionada com a experiência profética. A revelação particular com a qual o livro de Jonas se ocupa pode ser expressa nas palavras que formam a conclusão da história de Pedro e dos gentios, em #At 11.18: "Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida". Essa revelação, no livro de Jonas, foi transmitida de tal modo que salienta, por um lado, a soberana misericórdia e justiça de Deus, ao conceder a Nínive o "arrependimento para a vida", enquanto que, por outro lado, fica destacado o pecaminoso particularismo do servo de Deus, Jonas, ao resistir contra essa manifestação da vontade divina. II. BASE HISTÓRICA Visto que o livro de Jonas transmite uma mensagem distintiva, muitas pessoas, em anos recentes, têm imaginado que a narrativa não é histórica, mas antes, imaginada, e que, à semelhança da história do Bom Samaritano, por exemplo, deveria ser classificada como uma parábola. Porém, apesar de que este último ponto de vista não é inteiramente impossível, sem dúvida não é necessário imaginar que em vista de um livro ter um propósito didático (ou, conforme preferiríamos dizer, revelatório), não pode, ao mesmo tempo, ser uma narrativa histórica. #At 10.1-11.18, que, conforme já tivemos ocasião de sugerir, sob certos aspectos é o paralelo neotestamentário de Jonas, tem um motivo didático semelhante. Porém, ninguém apresenta a sugestão que Lucas pensava estar escrevendo uma parábola ou uma ficção homilética. Por semelhante modo, naturalmente, a presença de elemento miraculoso em um relato não é evidência que não foi registrado como narrativa histórica e que seu autor não tenha tencionado que fosse aceito como tal. Um grupo mais reduzido de pessoas tem apresentado a suposição que Jonas é uma alegoria do exílio e da missão de Israel. #Jr 51.34 é exibido como possível base para essa história. Esse ponto de vista, em parte, é uma tentativa de explicar as ocorrências na história que, de outro modo, teriam de ser consideradas miraculosas, e envolve a teoria, que o livro é produto do período pós-exílico. Uma vez mais, todavia, apesar de que podemos ter, legitimamente, um paralelo iluminador entre a experiência de Jonas e a que deveria sobrevir à nação israelita, de modo algum se segue que a história seja de data mais recente e não-histórica. Os livros da Bíblia não são produções fortuitas. O fato de Jonas haver sido engolido pelo grande peixe pode muito bem prefigurar o exílio, como certamente prefigura o sepultamento de Cristo. Qualquer avaliação do caráter histórico do livro de Jonas precisa levar em consideração os fatos seguintes: Primeiro, o próprio Jonas, sem dúvida alguma, foi um personagem histórico, um profeta de Jeová em Israel (#2Rs 14.25). Segundo, o livro foi lavrado na forma de narrativa histórica direta, não havendo indicação positiva que o livro deva ser interpretado doutra forma que não a literal. Terceiro, se esse livro é uma parábola ou alegoria, então é único e sem analogia entre os livros do Antigo Testamento. Quarto, nem os judeus nem os cristãos, até recentemente, jamais consideraram que o livro de Jonas registra outra coisa além de fatos reais, quaisquer que sejam as interpretações que tenham emprestado à sua mensagem. Finalmente, nosso Senhor Jesus Cristo claramente acreditava e sabia que o arrependimento dos homens de Nínive foi uma ocorrência real e é muito natural considerar Sua alusão aos "três dias e três noites no ventre da baleia", da experiência de Jonas (#Mt 12.40-41), do mesmo modo. Em adição, pode-se argumentar que a força total da autovindicação de Jeová perante Jonas exige uma missão real a uma cidade pagã, um arrependimento verdadeiro de sua parte, e haverem seus habitantes sido realmente "poupados" pelo Senhor. Não é fácil acreditar que o desafio que diz: "E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive...?" tenha sido apresentado ao povo de Israel, por intermédio do escritor inspirado, mediante uma consideração puramente hipotética. III. DATA E AUTORIA Não se pode chegar a certeza alguma no que diz respeito à data em que o livro foi escrito. Alguns têm argumentado que a história inteira não teria significado depois que Nínive foi realmente destruída (em 612 A. C.). Há alguma força nesse argumento. Então "Não hei de eu ter compaixão... de Nínive...?" não seria apenas uma consideração hipotética, mas uma consideração bastante mal escolhida. (#Jn 3.3 será considerado no comentário). Diversos eruditos proeminentes, em realidade, têm atribuído o livro a qualquer século, entre o oitavo e o segundo A. C. Porém, deve ser frisado que o principal motivo pelo qual muitos eruditos mantêm que esse livro seja produto do período pós-exílico é que "o pensamento geral e o teor do livro... pressupõe o ensino dos grandes profetas", incluindo Jeremias (S. R. Driver). Porém, não vemos razão que nos incline a acompanhar esse julgamento altamente subjetivo. "A presença de aramaísmos no livro não pode ser critério para determinar a data, visto que os aramaísmos ocorrem nos livros do Antigo Testamento desde os mais recuadas até os mais recentes períodos" (E. J. Young). Juntamente com a evidência lingüística, deve ser levado em consideração o fato que "não existe neles (Jonas, Joel, etc.) uma só palavra grega" e "nem uma palavra babilônica que já não tenha sido encontrada na literatura mais antiga" (R. D. Wilson). Essa evidência não dá apoio à teoria que Jonas pertence ao período pós-exílico. S. R. Driver, que defendia o ponto de vista pós-exílico, admitiu como possibilidade que "algumas das características lingüísticas podem ser consistentes com a origem pré-exílica, ao norte de Israel" (Introduction, pág. 301). Jonas exerceu seu ministério no reinado de Jeroboão II (793-753 A. C.), e parece muito natural supor que a história tenha sido originalmente posta em forma escrita algum tempo antes da queda do reino do norte, em 721 A. C., embora facilmente possa ter havido circunstâncias que ocorreram entre 721 A. C. e 612 A. C., quando Israel era governada por Nínive, que tenham possibilitado uma publicação mais lata do livro naquele período. Nada é dito no livro de Jonas acerca do seu autor. Embora o próprio Jonas, obviamente, deva ter sido a principal fonte final de informação para a história não há motivo pelo qual ele deva ter sido o autor. Sem dúvida a história logo se tornou conhecida em Israel e podemos presumir que os marinheiros tiveram sua contribuição para propagar o relato. O capítulo primeiro tem certo número da sinais de que o relato se derivou de outra fonte que não o próprio Jonas (como Atos 27). O versículo 5a, por exemplo, descreve o que teve lugar enquanto Jonas estava dormindo no porão do navio e o versículo 16 relata o que fizeram os marinheiros depois que Jonas foi lançado ao mar. Presumivelmente a embarcação regressou ao porto quando a tempestade amainou, visto que aparentemente ainda não se haviam afastado muito da terra (#Jn 1.13) e, de qualquer modo, a carga havia sido atirada borda fora (#Jn 1.5). Se Jonas, igualmente, retornou a Jope, talvez foi à base da informação prestada pelos marinheiros que ele foi capaz de calcular por quanto tempo estivera debaixo da água. IV. JONAS E JESUS Certo número de importantes passagens bíblicas deveriam ser estudadas paralelamente com o livro de Jonas. No Antigo Testamento, por exemplo, #Jr 1.4-10 (quanto à comissão profética), #Jr 18.7-10 (quanto ao efeito do arrependimento sobre a proclamação de Deus), #Sl 139; 16.8-11 (quanto à experiência do profeta). Em o Novo Testamento, #At 10.1-11.18 e #Rm 9-11, ilustram a mensagem missionária de Jonas, e vice-versa. Porém, em particular, as passagens nos evangelhos que se referem a Jonas, deveriam ser comparadas e estudadas (#Mt 12.38-41 e #Lc 11.29-32). Alguns pontos serão abordados no comentário. Aqui, entretanto, podemos notar que Jonas é o único profeta do Antigo Testamento com o qual Jesus se comparou diretamente, obviamente Jesus considerava a experiência e a missão de Jonas como de grande significação. É extremamente interessante, portanto, relembrar que tanto Jesus como Jonas foram "profetas da Galiléia". A cidade de Jonas, Gate-Hefer, ficava a apenas alguns poucos quilômetros ao norte de Nazaré, a cidade de Jesus. Era menos que uma viagem de uma hora a pé. Jesus deve ter ido lá freqüentemente. Talvez até em Seus dias o túmulo de Jonas fosse conhecido ali, como mais tarde, na época de Jerônimo. Foi ali que, nos dias de Sua obscuridade, Jesus começara a meditar sobre a significação de Jonas e de Sua própria missão? Os fariseus aparentemente se esqueceram de Jonas quando atacaram Nicodemos dizendo-lhe que "da Galiléia nenhum profeta surgiu" (#Jo 7.52). Tivesse ele pesquisado as Escrituras com mais cuidado, não teriam errado tanto, ao deixar também de perceber que "está aqui quem é mais do que Jonas" (#Mt 12.41). Jn-1.1 I. A COMISSÃO A JONAS, DADA E REJEITADA Jn 1.1-3 Jonas aparece como alguém para quem veio a palavra do Senhor, isto é, como para um profeta. (Cfr. #2Rs 14.25 quanto a outros detalhes sobre Jonas). Sua incumbência foi tão incomum quanto indesejável, pois Nínive, poderosa e famosa, era capital do império pagão da Assíria, o inimigo constante de Israel. A frase subiu até mim (2) apresenta Jeová como "Juiz de toda a terra (#Gn 18.25; cfr. #Gn 6.13). Imediatamente Jonas resignou sua comissão profética, de modo deliberado. A ênfase sobre o fato de fugiu de diante da face do Senhor (3; ver também #Jn 1.10) não subentende uma crença como a de Naamã, em #2Rs 5.17, de que a presença de Jeová se restringisse ao solo de Israel. Os versículos 2b e 9 provam o contrário. Pelo contrário, tal fato indica que o profeta se retirara da intimidade com Jeová. Não mais podia o profeta dizer sobre seu Deus, "perante cuja face estou" (#1Rs 17.1). Jonas fez o que Moisés temeu fazer (#Êx 33.14-15), e também perdeu o "descanso" que acompanha a presença de Deus. Com um gesto de independência, o servo de Jeová escolheu um destino, Társis, no outro extremo do mar Mediterrâneo, bem longe de onde se encontrava. Passando a depender então de seus recursos, ele pagou, pois, a sua passagem no navio e embarcou (3). Jope, que é a moderna cidade de Jafa, é o único porto considerável na costa da Palestina. É interessante observar que Jope também desempenha importante papel, na história do Novo Testamento sobre Pedro e os gentios, em #At 10.1-11.18. >Jn-1.4 II. A FUGA DE JONAS E A PERSEGUIÇÃO DE JEOVÁ Jn 1.4-17 A desesperada tentativa de Jonas para escapar de Deus, até o ponto de aceitar a morte por afogamento e o fato de Deus ter recuperado Jonas, ocupa a porção mais volumosa da narrativa. O profeta desobediente não pôde escapar de Jeová. Mas, por enquanto, ainda não fomos informados sobre qual razão levou Jonas a preferir desobedecer à ordem de Jeová; isso desvendado adiante, em seu próprio lugar. Aqui temos de enfrentar um fato fundamental acerca dos propósitos eletivos de Deus, a saber, que "os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento" (#Rm 11.29). A todos os Seus profetas Jeová disse, tal como Jesus disse a Seus apóstolos: "Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós" (#Jo 15.16). Jeová tomou duas providências para recuperar Jonas. Primeiramente, o Senhor mandou ao mar um grande vento (4). Isso deu em resultado o terem ficado aterrorizados os marinheiros, o ter Jonas sido descoberto como causador do tufão e o ter sido ele jogado borda fora. Em segundo lugar, Deparou (lit., "apontou") um grande peixe, para que tragasse a Jonas (17; ver anotação abaixo). Esse foi o meio de preservá-lo da morte, fazendo com que ficasse à mercê de Deus. Os instrumentos de Deus, neste caso, foram um grande vento e um grande peixe. Comparem-se outras ocasiões quando Deus operou a favor de Seu povo manobrando Sua criação, como, por exemplo, por ocasião da saída dos israelitas do Egito. >Jn-1.5 É instrutivo estudar a experiência de Jonas à luz de #Sl 139. Os pensamentos, as palavras e cada movimento do escritor eram conhecidos por Jeová "para onde fugirei da tua face?" pergunta ele. "Se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também... Se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá" (#Sl 139.7-10). Assim também foi a experiência de Jonas. O relato do navio a ponto de naufragar é gráfico e realista- o violento temporal, os marinheiros (5; lit., "sais") de muitas raças e religiões, seu pânico, o excitado interrogatório de Jonas, a relutância dos marinheiros em tomar a providência extrema sugerida pelo profeta, os marinheiros a remar freneticamente. A Septuaginta adiciona o detalhe que foi o ronco de Jonas, a dormir nos lugares do porão (5; lit., "partes internas da coberta inferior") que atraiu a atenção do mestre do navio para o suspeito viajante. >Jn-1.10 O comportamento de Jonas é contrastado com o comportamento dos marinheiros pagãos. Estes estavam possuídos, de forte senso de obrigação religiosa e se admiravam da temeridade de Jonas, que fugia da presença de seu Deus (10). Mostraram-se escrupulosos quando parecia inevitável que Jonas fosse lançado ao mar; e quando o mar finalmente se acalmou, demonstraram temor apropriado para com Jeová (16). Não obstante, esse incidente claramente mostra que Jonas não era um covarde. Ele se mostrava comparativamente calmo e equilibrado. Professou sua fé e sua culpa deliberadamente, e de igual modo deliberado preferiu afogar-se para que outros não viessem a perecer por sua causa. Não há dúvida que ele considerava sua morte iminente como castigo de Jeová. A comparação do comportamento do Jonas com os dos personagens da #At 27 e #Mc 4.35-41 (e paralelos) prova ser instrutiva. >Jn-1.17 Deparou pois o Senhor um grande peixe (17). Note-se que o único lugar onde é empregado o termo "baleia" (e mesmo assim não em todas as versões) é em #Mt 12.40, onde a palavra grega assim traduzida significa "enorme peixe". G. C. Aalders (The Problem of the Book of Jonah) salienta que há certo número de enormes criaturas marinhas, capazes de tragar um homem adulto de forma bastante fácil e se refere a um caso real mencionado no Princeton Theological Review (1927). Esse peixe talvez tenha sido o "cachalote", que de fato é encontrado no Mediterrâneo, e que não tem a garganta estreita da verdadeira baleia, a qual, de qualquer modo, não é encontrada naquelas águas. A informação que Jonas ficou aprisionado no ventre do peixe por três dias e três noites (17), se sua intenção foi ser aceita literalmente, provavelmente não foi suprida pelo próprio Jonas, o qual, mesmo que tivesse mantido a consciência durante todo o tempo, dificilmente teria tido meios de marcar a passagem dos dias. Portanto, esse período deve ter sido calculado à base da informação suprida pelos marinheiros. Por outro lado, três dias e três noites pode ser apenas uma expressão aproximada para um período mais curto de tempo (cfr. #Jn 3.3 e #Js 2.16). A adição de três noites não empresta necessariamente exatidão à expressão, e sabemos que algures a expressão "depois de três dias" é equivalente a "ao terceiro dia". Cfr. as referências do Novo Testamento sobre a duração do sepultamento de Jesus (por exemplo, #1Co 15.4). #Mt 12.40 mostra que "três dias e três noites" era expressão considerada então como suficientemente exata para denotar um período de não mais de trinta e seis horas. Jn-2.1 III. A ORAÇÃO DE JONAS, NO VENTRE DO PEIXE Jn 2.1-10 Nesta seção, Jonas descreve sua experiência, atribuindo a salvação a Jeová e então foi devolvido à terra. Talvez o relato queira que observemos o contraste na posição de Jonas: ele, que estando no navio, aparentemente se recusava a levantar-se e invocar o nome de seu Deus (#Jn 1.6), agora sentia-se constrangido a orar ao Senhor seu Deus, das entranhas do peixe (#Jn 2.1). A oração de Jonas, um salmo em métrica hebraica elegíaca, de vez em quando é declarada como uma inserção estranha. Não obstante, é muito apropriada em seu contexto e não necessitamos de duvidar que seu conteúdo essencial pertença à ocasião à qual é atribuída, mesmo que sua forma poética pertença ao período de reflexão, após o livramento do profeta. Algumas de suas frases relembram frases em outros salmos, mas, considerando a oração como um todo, é distinto de qualquer dos salmos existentes. Note-se, todavia, que se trata de um salmo de agradecimento a Jeová que livrou o profeta do Seol (morte), e não como alguns críticos parecem pensar que deveria ser, uma oração para ser salvo do peixe. Primeiramente Jonas descreve como, em sua desesperada situação, ruiu sua resistência voluntária a Jeová, e quando o horror de sua situação o impressionou ele clamou em desespero a seu Deus. (Cfr. o grito espontâneo de Pedro, em #Mt 14.30). O ventre do inferno (2) é o lugar dos mortos (Seol) (a palavra usada aqui para ventre é diferente da que é usada para ventre do peixe) cujos habitantes eram considerados como cortados da mão de Deus para nunca mais serem lembrados por Ele (#Sl 88.5; ler este Salmo inteiro que dá uma descrição sobre o Seol, o que tornará mais compreensível o horror de Jonas). >Jn-2.4 Há certas bases para pensar-se que a segunda porção do versículo 4 deveria ser levemente corrigida para que lesse: "Como tornarei a ver...?" Jonas estava, realmente, em desesperada situação. O templo da tua santidade (4), aqui como no versículo 7, simboliza o lugar da presença de Jeová, de onde Jonas havia fugido. Isso forma um contraste extremo com o ventre do inferno. Em qualquer que tenha sido o santuário em que Jonas estivesse acostumado a adorar em Israel, é provável que aquele que adorava o Deus do céu estava aqui pensando sobre o templo da tua santidade como "céus, assento da tua habitação" (#1Rs 8.39). >Jn-2.7 A seqüência de pensamento, nos versículos 2-7, sugere que após a desesperada oração, Jonas foi dominado pela água e pela pressão das profundezas, e que a próxima coisa de que tomou consciência foi de que simplesmente ainda estava vivo. Se tivermos de considerar que seu agradecimento foi proferido perto do término do período de três dias, podemos supor que durante a maior parte do tempo anterior ele estava desmaiado, como talvez já se encontrava quando foi tragado pelo grande peixe. Nesse caso, ele passou pela outra experiência referida em #Sl 139.18: "quando acordo ainda estou contigo". >Jn-2.6 >Jn-2.8 Devemos notar, entretanto, que embora Jonas estivesse agora pronto para receber o mandado de Deus, não havia qualquer evidência que sentia compaixão pelos ninivitas. Sua experiência quanto à misericórdia de Deus apenas o confirmou em sua crença que aqueles que observam as vaidades vãs (isto é, adoram deuses falsos ou ídolos), deixam a sua própria misericórdia (isto é, separam-se de Jeová, a única verdadeira fonte de socorro para eles) (8). Essa evidência sobre o exclusivismo de Jonas, mesmo em meio às misericórdias de Jeová, fornece um ponto a mais para a repreensão do Senhor a Jonas, no capítulo 4. Essa atitude, entretanto, não era peculiar a Jonas. O Salmo 139 nos dá, uma vez mais um paralelo. Anote a transição semelhante de pensamento ali, do versículo 18 para os versículos 19 e segs. Este salmo de Jonas se reveste de importância especial à luz da referência que Jesus fez a ele, em #Mt 12.40; pois a natureza da semelhança entre a experiência de Jonas e a de Cristo pode ser mais claramente observada aqui. Assim, Jesus, que é maior que Jonas, o verdadeiro Servo e Profeta de Jeová, chegou ao extremo do sofrimento humano (por causa da desobediência de outros). O que Jonas suportou em figura" (#Hb 11.19 -uma figura semelhante de morte) Jesus suportou em realidade. Em sua "aflição" Ele desceu ao "ventre do inferno" e as "vagas de Deus passaram sobre Ele" (cfr. #Is 53). Assim como Jonas clamou: Lançado estou de diante dos teus olhos (4), semelhantemente Cristo foi constrangido a clamar: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (#Mt 27.46). Não obstante, o sepultamento de Jesus não somente denotou a extrema intensidade de Sua paixão (conforme estabelece o Credo: "Ele desceu aos infernos", isto é, ao Hades ou Seol); mas igualmente destacou a realidade de Seu livramento, da morte para a vida. Estude-se o sermão pentecostal de Pedro, em Atos 2 especialmente os versículos #At 2.24, e segs. "ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela". O testemunho de Jonas, mas tu livraste a minha vida da perdição (6), tem um notável paralelo no versículo de #Sl 16.10, citado por Pedro em #At 2.27: "porque não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção". Jn-3.1 IV. A COMISSÃO PROFÉTICA É REITERADA E ACEITA Jn 3.1-9 Tendo sido devolvido à terra por mandamento de Jeová, Jonas foi comissionado segunda vez. Castigado por suas experiências, ele agora obedece, embora, aparentemente, não se sentisse mais caritativamente disposto para com Nínive do que antes. A pregação que eu te disse (2) salienta que o pregador não fala de si mesmo, mas, "de acordo com os oráculos de Deus" (#1Pe 4.11). O que é verdade sobre Cristo, o Filho, a Palavra eterna, também deve ser verdade acerca de todos os Seus servos: "o enviado de Deus fala as palavras dele" (#Jo 3.34). Ver, semelhantemente, o caso de Moisés (#Êx 4.10-16), de Jeremias (#Jr 1.6-9), e dos discípulos de Jesus (#Mt 10.19-20). Jonas sabia, desde o princípio, que lhe competia pregar a pregação que Deus lhe tinha ordenado; ele fora um profeta desobediente e não um profeta falso. >Jn-3.3 Um particular do versículo 3 chama a atenção para a vastidão de Nínive e, assim, para a tarefa de Jonas. Grande cidade é, literalmente, "grande cidade para Deus" ou "grande cidade perante Deus", o que é um modo regular de expressar o superlativo em hebraico. Assim, Moisés é descrito em #At 7.20 como "formoso aos olhos de Deus". Há uma certa ponta de ironia nessa expressão aqui; pois destaca a estima que Deus fazia de Nínive, diferente da estima de Jonas. Esse particular, no entanto, tem causado dificuldades para algumas pessoas, que se baseiam em duas coisas. Primeiramente, o verbo era está no tempo perfeito no hebraico, o que para aquelas pessoas parece deixar implicado que então Nínive há muito já havia perecido (assim apoiando uma data posterior para o livro). Em segundo lugar, a moderna pesquisa arqueológica não confirma totalmente o grande tamanho de Nínive. A primeira dificuldade não é decisiva, pois, visto que a narrativa inteira é posta no passado, a afirmação que era pois Nínive uma grande cidade não precisa implicar mais que assim ela era quando Jonas esteve ali. (Naturalmente que isso pode ser uma glossa posterior; e seria uma glossa natural, pois tais anotações, por escribas habilidosos não são desconhecidas nos manuscritos antigos. Mas é curioso que as pessoas que são normalmente inclinadas a descobrir interpolações secundárias, nos livros do Antigo Testamento, preferem destacar esse particular como parte do texto, e usá-lo como alavanca para empurrar a data do livro inteiro para algum tempo muito depois da queda de Nínive, que ocorreu em 612 A. C.). A segunda dificuldade é, igualmente, capaz de ser solucionada. A própria cidade de Nínive, segundo as dimensões dadas por Senaqueribe e pelas modernas pesquisas em suas ruínas (cerca de 18 quilômetros), era consideravelmente menor que a linguagem de Jonas dá a entender. #Gn 10.12, entretanto, aplica o título "grande cidade" a quatro cidades na área, das quais a própria Nínive é a primeira a ser nomeada e a mais importante. Recentes descobertas arqueológicas demonstram que uma dessas, Calá, tinha uma população de 70.000; e por seus muros, fica-se sabendo que essa cidade era cerca de metade do tamanho de Nínive, o que explica que a mui debatida cifra de cento e vinte mil homens (#Jn 4.11) é, mais provavelmente, um recenseamento de Nínive quando em seu maior surto populoso. Em tempos posteriores foi calculado (por Quitésias e Diodoro) que Nínive tinha um circuito de cerca de 480 estádios, ou cerca de 96 quilômetros, e isso parece refletir a tradição de uma cidade extremamente grande (embora toda essa extensão nunca tenha sido circunscrita por um muro só, como Diodoro parece ter pensado). O circuito inteiro das quatro sedes do distrito de Nínive é, de fato, 99 quilômetros, ou seja, cerca de três dias de caminho. Ora, em adição ao particular em #Jn 3.3, que estamos a considerar, Nínive, em três ocasiões separadas, é descrita como a grande cidade (#Jn 1.2; #Jn 3.2-4.11) e a adição desse termo pode indicar que aqui está em vista a área ou "distrito" maior, deliberadamente. Podemos comparar isso com designações modernas como "a Grande Londres". É possível que seja significativo o fato que o termo "grande" não é adicionado em #Jn 4.5; a cidade, aqui, indubitavelmente é a própria Nínive, a cidade de caminho dum dia (#Jn 3.4), onde Jonas chegou aos ouvidos do rei de Nínive, mediante cuja proclamação o jejum de arrependimento se estendeu a todo o povo de Nínive. >Jn-3.7 Não sabemos quais outras circunstâncias, em Nínive, possam ter sido favoráveis à produção da contrição, mas a pregação de Jonas, sobre condenação iminente-a única verdadeira "profecia" neste livro profético-resultou num imediato e generalizado arrependimento. O próprio rei ordenou um jejum. Note-se a curiosa inclusão dos animais nesse jejum (7), como em Judite 4.9 e segs., e na fome referida em #Jl 1.19-20. Os próprios animais do campo, que clamam ao Senhor, são objetos de Sua compaixão, conforme as últimas palavras do livro de Jonas nos informam. "O sinal de Jonas" (#Mt 16.4) inclui não apenas a sua "morte" e "ressurreição", mas também sua pregação, em virtude dessa "ressurreição", à gentia cidade de Nínive. Pondere-se sobre a grande importância desse sinal para a geração de Cristo (#Lc 11.29 e segs., #Mt 12.38 e segs.) e para nossa própria geração. >Jn-3.10 V. DUAS REAÇÕES AO ARREPENDIMENTO DE JONAS: JEOVÁ DESAFIA A JONAS Jn 3.10-4.11 E Deus se arrependeu do mal (10)... mas desgostou-se Jonas extremamente (4.1). O "arrependimento" de Deus e o fato de ter suspendido o julgamento não foram, naturalmente, arbitrários. É um postulado básico do livro de Jonas que Deus se arrependeu do mal (ver #Jl 2.13-14 e especialmente #Jr 18.6-10).

Habacuque


HABACUQUE INTRODUÇÃO I. AUTOR Nada sabemos a respeito de Habacuque fora das informações prestadas neste livro, mas mesmo aqui ele não nos fornece sua genealogia nem nos diz quando profetizou. O próprio nome é aparentado de um vocábulo assírio, que significa uma planta ou vegetal. Na Septuaginta, seu nome aparece como Ambakoum. Jerônimo a derivou de uma raiz hebraica que significa "segurar", e disse que: "ele é chamado "Abraço" ou por causa de seu amor ao Senhor, ou porque lutava contra Deus". Lutero, e muitos comentadores modernos, têm favorecido a mesma derivação. Certamente não é derivação inapropriada, pois neste pequeno livro vemos um homem, em ânsia mortal, em luta com o grande problema da teodicéia-a justiça divina-em um mundo desordenado. Encontramos a mesma espécie de conflito no mais volumoso livro de Jó. Habacuque foi o primeiro profeta a impugnar não a Israel, porém a Deus. O livro contém um solilóquio entre ele mesmo e o Todo-Poderoso. O que o deixava perplexo era a aparente discrepância entre a revelação e a experiência. Ele procurava explicação para isso. Nenhuma resposta direta é dada à sua interrogação, mas é-lhe assegurado que a fé paciente terminará saindo vencedora (#Hc 2.4). Ele expressa sua fé mui vividamente, em #Hc 3.17-19, onde o sentimento encontra um eco mais recente, no hino de William Cowper: "Deus é Seu próprio intérprete, e Ele deixará claro". Por causa do arranjo musical do capítulo 3, alguns têm pensado que Habacuque foi levita. É possível que ele tenha sido membro de um grupo profissional de profetas, associados ao templo (#1Cr 25.1). Ele é o único dos profetas canônicos que a si mesmo chama de "profeta" (#Hc 1.1), e julga-se que isso indica posição profissional. Habacuque aparece na história apócrifa de Bel e o Dragão, como aquele que livrou Daniel da cova dos leões pela segunda vez; porém, tudo isso não passa da lenda. II. DATA E OCASIÃO Em #Hc 1.6 somos informados que Deus estava levantando os caldeus (isto é, os babilônios) como um instrumento de castigo. Sem dúvida isso se refere ao império babilônico revivificado, que derrubou o enfraquecido império assírio no fim do quinto século A.C. Nínive foi destruída em 612 A.C. e Nabucodonosor, rei da Babilônia, derrotou Faraó Neco, do Egito, em Carquemis, em 605 A.C. Três anos antes dessa batalha, Faraó Neco matou Josias, rei de Judá, em Megido (#2Rs 23.29-30; #2Cr 35.20 e segs.), e estabeleceu reis títeres sobre o trono de Judá, porém, nem Faraó Neco nem eles eram adversários para o crescente poder da Babilônia, e assim, durante os vinte anos seguintes, Judá ficou à mercê dos caldeus e foi finalmente levado em cativeiro, em 586 A. C. As profecias de Habacuque se referem claramente a esse período e podem ter sido entregues a público ou antes ou depois da batalha de Carquemis. Em ambos os casos, Habacuque teria sido contemporâneo de Jeremias (627-586 A. C.). Em favor da data mais antiga temos a sugestão, em #Hc 1.5, que o levantamento dos caldeus ainda era acontecimento futuro e, no tempo em que o profeta falou, era ainda algo que fazia as pessoas se admirarem (E. B. Pusey, por exemplo, data a profecia tão cedo como o fim do reinado de Manassés, isto é, tão recuada como a frase em vossos dias, em #Hc 1.5, permite); em favor de uma data depois de 605 A. C. temos a descrição detalhada dos métodos de guerra dos caldeus, como algo já bem conhecido (#Hc 1.7-11). O reinado do mau rei, Manassés fora "uma época que provou a fé das almas piedosas" (Kirkpatrick). A reforma sob o rei Josias (637-608 A. C.) se tinha mostrado ineficaz, pelo que a iniqüidade e a perversidade (#Hc 1.3) da desviada Judá deveriam ser castigadas. Por esse motivo Deus estava levantando os caldeus. Esse o ponto de vista geral dos eruditos. Alguns, entretanto, referem #Hc 1.2-4 não à desviada Judá, mas a algum opressor pagão. Esse opressor poderia ser a própria Caldéia; nesse caso, o texto teria de ser rearranjado para que os versículos 5-11 precedessem os versículos 2-4 (Giesebrecht) ou deveriam ser eliminados (Wellhausen). Ou o opressor poderia ter sido a Assíria: assim pensa Budde, que coloca os versículos 6-11 após #Hc 2.2-4, e data a profecia logo depois de 625 A. C., quando Nabopolassar, o caldeu, se tornou independente da Assíria. Mas, nesse caso, por que a Assíria não é mencionada? Em terceiro lugar, há a possibilidade de referir-se ao Egito: assim pensa G. Adam Smith, que compara #Hc 1.2-4 com #2Rs 23.33-35. Porém, a queixa de Habacuque, em #Hc 1.12-2.1 não é que Deus estava usando uma nação pagã para castigar outra, mas antes, que o Senhor estava usando uma nação pagã para punir Judá. A despeito da lei haver sido redescoberta no templo, em 621 A. C. (#2Rs 22.8; cfr. #Hc 1.4), o povo de Judá se inclinava para a violência e para a injustiça. O rearranjo do texto, para adaptar-se a uma teoria particular, é sempre um expediente duvidoso. Parece mais seguro aceitar o texto tal qual está e atribuir #Hc 1.2-4 ao povo de Judá. Um crítico conservador, W. A. Wordsworth, situa a entrega da profecia um século antes, fazendo Habacuque ser contemporâneo de Isaías, com cujas profecias encontra ele muitas afinidades em Habacuque. A data fixadora é, então, a captura de Babilônia pelo caldeu Merodaque-Baladã, em 721 A. C. Outros, com certa base de apoio à sua posição da parte das versões gregas, omitem inteiramente a palavra "caldeus", em #Hc 1.6, ou então, juntamente com Duhm, substituem-na pela palavra "Quitim", isto é, gregos cipriotas, assim colocando o livro nos dias de Alexandre, o Grande, cerca de 333 A C. Tais pontos de vista exigem considerável manuseio no texto e não são muito plausíveis. Mas é interessante notar que os Papiros do Mar Morto, recentemente descobertos, que contêm o comentário de Habacuque embora lhe falte a primeira metade de #Hc 1.6 traz a seguinte nota a respeito: "interprete-se (isso) como os Quitim, cujo temor está sobre todas as nações". Isso, entretanto, pode ter sido apenas uma "aplicação moderna" de uma situação mais antiga. Parece melhor, por conseguinte, situar a data do livro de Habacuque cerca de 600 A. C., ou um pouco antes. III. TEXTO E COMPOSIÇÃO O significado do texto hebraico nem sempre é claro e a Septuaginta apresenta algumas poucas mas interessantes variações, como, por exemplo, a grande afirmativa em #Hc 2.4, que, em um texto da Septuaginta é "totalmente messiânica" (T. W. Manson). Ver anotação in loco. A incerteza quanto a quem se referem várias passagens, tem levado muitos críticos a rearranjar o texto e, em alguns casos, até a dividir a autoria do livro. Para alguns, Habacuque seria o autor dos capítulos 1 e 2; para outros, seria ele o autor do capítulo 1 e da maior parte do capítulo 2, enquanto que o capítulo 3 seria um poema posterior, do período persa ou dos macabeus. Mas muitos, à semelhança de Kirkpatrick, de J. Peterson, e de outros, preferem considerar o livro como um todo artístico e relacionado. Parece que a intenção da profecia era de ser lida e não de ser ouvida (ver #Hc 2.2). Tem mais a natureza de um poema especulatório e meditativo do que um sermão ou discurso público. O salmo, no capítulo 3, evidentemente tinha o propósito de encorajar o povo de Deus em período de adversidade. Hc-1.1 I. INTRODUÇÃO Hc 1.1 O tema é maior e mais importante que o homem, o que explica a breve menção do nome do profeta e sua posição, juntamente com o seu peso, isto é, sua declaração profética ou oráculo. Essa palavra é praticamente sinônima de "revelação": por isso ele viu (como um "vidente"); cfr. #2Rs 9.25. >Hc-1.2 II. PRIMEIRA QUEIXA Hc 1.2-4 Até quando, Senhor, clamarei eu...? (2). O profeta fala como se fosse a consciência da nação. Ele estava perturbado devido à presença da iniqüidade entre o povo de Deus, em detrimento de todas as instituições religiosas. A lei (isto é, a torah) se afrouxa (4). Por que Deus não intervinha? Tal pergunta poderia levantar-se somente em Israel. Somente para homens que acreditam em um único Deus, que é ao mesmo tempo santo e bom do mesmo modo que é o onipotente criador e sustentador do universo, poderia haver qualquer problema real de teodicéia. O dilema, "se existe Deus, então por que o mal?" não é dilema para aqueles que acreditam num panteão de divindades em luta, cuja moral dificilmente é diferente da moral comum de homens e mulheres. O pensamento sobre a indesviável justiça de Deus de pronto cria uma tensão à luz das experiências diárias e exige uma explicação. Há ocasiões, na vida de alguns homens, quando essa tensão se torna particularmente aguda, conforme vemos aqui. O ímpio cerca o justo (4); rodeia-o como um inimigo, tendo em vista provocar-lhe a ruína. >Hc-1.5 III. A RESPOSTA DE DEUS Hc 1.5-11 Os caldeus, que já estavam distribuindo destruição entre as nações circunvizinhas, haveriam de voltar-se contra Judá e tornar-se-iam, nas mãos de Deus, um instrumento de castigo. Essa é a obra de que Deus diz: vós não crereis (5), tão incrível pareceria ela. Pois os caldeus adoravam seu próprio poder (11), e para eles o direito era sua força. Eram lei para si mesmos (7b) e zombavam de toda autoridade (10). Em lugar de entre as nações (5; em heb., gaboyyim), leia-se "vós obreiros da iniqüidade" (em heb., bôgh’-dhîm), ou "criaturas infiéis" (Moffatt). No versículo 8, pode-se omitir a segunda vez em que aparece seus cavaleiros. Águias (8), naturalmente, é o abutre. O versículo 11 é obscuro. Talvez seja melhor corrigir o texto, traduzindo-o como: "e seu espírito (isto é, propósito) se altera e ele levanta um altar para seu deus (I. C. C.), isto é, lendo-se wayyâsem, "e ele levanta", em lugar de w’âshem, "e ele é culpado". Contudo, W. A. Wordsworth traduz: "Eu apontarei aquele cujo poder é o de seu Deus", isto é, o rei messiânico. >Hc-1.12 IV. SEGUNDA QUEIXA Hc 1.12-2.1 Se os caldeus idolatravam sua própria força bruta, como poderiam ser eles usados por um Deus que não pode, por Sua própria natureza, ver o mal (13)? E se esse Deus vier a usá-los, então Ele terá de ser semelhante a eles, tratando os homens como se fossem os peixes do mar (14), para serem capturados e mortos à vontade, cuja única consideração é o prazer que se deriva de sua destruição (15 e segs.). A natureza revelada de Deus e o objetivo real de adoração dos caldeus parecem morrer perante a suposição que Deus pudesse usar os caldeus. O profeta não via possibilidade de explicação, de qualquer dos lados. Deus tinha de vindicar a Si mesmo. Vigiarei... o que eu responderei (#Hc 2.1). O profeta estava profundamente consciente da urgência da situação. "Ele tinha um posto a manter, uma trincheira a guardar" (G. Adam Smith). Nós não morreremos (12). O Talmude tem: "Tu não morrerás", o que faz melhor sentido. Não é necessário considerar a segunda metade deste versículo como uma intrusão (sic I. C. C.). O que cria o problema para Habacuque é o fato que para juízo o puseste. A Septuaginta tem uma tradução diferente. No versículo 16 há um trocadilho referente à palavra rede e à palavra "coisa maldita", que é praticamente a mesma coisa em hebraico. Hc-2.1 O que eu responderei (2.1). Assim diz o heb., a Septuaginta e certas versões, como está mas talvez seja melhor ler: "o que Ele responderá". A pessoa foi trocada, por algum escriba, movido pelo senso de reverência. O pensamento que Deus estava perante um tribunal de justiça humana é certamente espantoso. >Hc-2.2 V. A RESPOSTA DE DEUS Hc 2.2-4 A Caldéia, o instrumento que Deus usaria para punir, estava por sua vez debaixo do julgamento de Deus e não escaparia da justa penalidade por seus atos errados. A arrogância e a fidelidade têm, cada qual, sua própria recompensa, como aqueles que esperam verão. À primeira vista, parece não haver qualquer coisa muito inspiradora nessa asserção. Alguns têm mesmo duvidado que isso constitua uma "revelação". Porém, conforme tem sido frisado, aqui há mais do que cai sob a vista dos olhos, e o emprego desta passagem no Antigo Testamento demonstra que de fato é uma passagem cheia de significação. Mas, quaisquer que sejam os tesouros que a declaração de 4b mais tarde desvende, uma coisa torna-se clara logo de início, e é que o próprio profeta finalmente percebeu que o único elemento duradouro em um mundo instável e iníquo é o caráter. A tirania, a ganância e o orgulho estão todos condenados; apenas a integridade continua. Torna-se bem legível sobre tábuas (2). Tabletes de argila eram usados na Babilônia (cfr. #Is 8.1). Para que a possa ler o que correndo passa (2). No hebraico é uma expressão idiomática, aqui muito bem traduzida. Mais exatamente poderíamos traduzi-la: "para que possa lê-la imediatamente (quem quer que a veja)". O justo pela sua fé viverá (4). Esse grande tema é desdobrado pelo apóstolo Paulo, em #Rm 1.17; #Gl 3.11, e pelo autor da Epístola aos Hebreus, em #Hb 10.38. A primeira metade do versículo é diferentemente traduzida pela Septuaginta, que diz: "se ele, isto é, o prometido remidor que certamente virá (3), recuar, minha alma não tem prazer nele". Essa versão é reproduzida em #Hb 10.38, mas as cláusulas se acham ali invertidas. E a Septuaginta prossegue: "mas o justo viverá por minha fé". Esse "minha" é omitido em #Hb 10.38. O texto hebraico de Habacuque (cfr. também #Rm 1.17; #Gl 3.11) tem "sua fé", e a referência, nesse caso, não é ao Messias, que deverá provar Sua identidade por corajosa fidelidade à Sua comissão, mas antes, a referência é à alma crente que, na "fé" tem a pedra de toque da perseverança. Viverá é usado no significativo sentido de desfrutar do favor de Deus, com ou sem benefícios temporais. Aqui está em foco não tanto a "fé", mas antes, a "fidelidade"; o termo é mais lato que para Paulo ou para o escritor de Hebreus. Porém, "essa fidelidade deve originar-se na fé: portanto, a introspecção de Paulo é a verdadeira" (Kirkpatrick). Calvino diz ad loc.: "aqui o profeta fala sobre o estado da vida presente. Que tem isso a ver com a salvação da alma? Mas, quaisquer benefícios conferidos pelo Senhor aos fiéis, nesta vida, têm a intenção de confirmá-los na esperança da herança eterna. Portanto, quando Habacuque promete vida no futuro, aos fiéis, indubitavelmente ele salta por cima dos limites deste mundo e apresenta perante os fiéis uma vida melhor do que esta que agora têm aqui". >Hc-2.5 VI. OS CINCO AIS Hc 2.5-20 Estes versículos contêm cinco predições sobre a condenação da alma "inchada". Cfr. os seis ais de #Is 5.8 e segs. Note-se a frase repetida, por causa do sangue dos homens... nos versículos 8 e 17, que originalmente pode ter sido um refrão que concluía cada um dos cinco ais. Alguns críticos consideram os três últimos ais como uma adição posterior, mas S. R. Driver aceita todos os cinco como autênticos. Os versículos 5-6a são introdutórios, mas o texto do versículo 5 está corrompido. Talvez uma cláusula adverbial, "como com vinho", achava-se aqui originalmente. >Hc-2.6 a) Ai contra a agressão (Hc 2.6-8) As duas palavras hebraicas traduzidas como dívidas (6), só têm esse sentido quando reunidas, pois separadas significam "argila grossa". O saqueador seria por sua vez saqueado. >Hc-2.9 b) Ai contra a altivez (Hc 2.9-11) Para pôr o seu ninho no alto (9). Assim como os pássaros fazem seus ninhos no alto das árvores altas, assim buscava ele colocar-se fora do alcance do dano. Em lugar de trave (11) a Ssptuaginta tem "escaravelho" (em grego, kantharos). Talvez um engano, em lugar de cânfora, a resina do pinho, que, como gotas de sangue, clamavam contra o opressor. A raiz da palavra hebraica pode ser "cavar" ou "cinzelar", pelo que pode referir-se a imagens esculpidas-"ídolos mudos clamando por uma manifestação do Deus vivo" (W. A. Wordsworth). Ver #Lc 19.40. >Hc-2.12 c) Ai contra a violência (Hc 2.12-14) Cfr. #Mq 3.10 com o versículo 12. Habacuque estava, provavelmente, citando dessa passagem. Sangue pode significar sacrifícios humanos (ver #1Rs 16.34). O significado do versículo 13 é que, visto que somente Deus pode "guardar a cidade" (#Sl 127.1), todas as tentativas humanas para fazê-lo, por violentas que sejam, estão condenadas com antecedência ao fracasso. Para significa "apenas para satisfazer". O versículo 14 é uma citação livre de #Is 11.9. >Hc-2.15 d) Ai contra a desumanidade (Hc 2.15-17) Que lhe chegas o teu odre (15). Algumas versões traduzem: "que adicionas ali teu veneno". Omitindo-se uma letra no hebraico a frase tornar-se-ia "do cálice de tua fúria", o que dá melhor sentido. A violência cometida contra o Líbano (17). É incerta qual a invasão particular aqui referida, a não ser que o Líbano tenha sido o lugar mais próximo de Judá onde os caldeus já haviam penetrado. >Hc-2.18 e) Ai contra a idolatria (Hc 2.18-20) Que aproveitará a imagem de escultura? (18). Quanto ao sentimento da frase, cfr. a última metade do livro de Isaías. Mas o Senhor está no seu santo templo (20). "O profeta passa a fim de fazer contraste, do desprezo aos ídolos mudos e inúteis para o pensamento sobre o Deus vivo" (S. R. Driver). Assim, ficamos preparados para a teofania do capítulo 3. Hc-3.1 VII. VISÃO DE JULGAMENTO Hc 3.1-19 Os tempos verbais, neste capítulo, são incertos, e podem ser passados, presentes ou futuros. Parece que o profeta aproveita de todos os grandes relatos da história passada de Israel, particularmente do êxodo e da derrota dos cananeus no rio Quisom (#Jz 4-5). Ele invocava uma repetição daquelas portentosas libertações-aviva, ó Senhor, a tua obra (2). Ou então, temos aqui, uma expressão de sua fé (cfr. #Hc 2.4) na presente atividade de Deus, a despeito de tudo estar correndo adversamente (ver especialmente os versículos 17-19). Deus, mesmo agora, estava vindo ao julgamento. Tem sido posta em dúvida a autenticidade deste capítulo. Não há características especificamente caldaicas. As calamidades, nos versículos 17 e segs., antes parecem naturais do que devidas à ação do inimigo. No capítulo 2, a queda dos caldeus deveria ser provocada por causas naturais; no capítulo 3, por intervenção divina. Porém, isso é salientar por demais agudamente o contraste, e é mais aconselhável ver neste capítulo um exemplo daquela "fidelidade" mediante a qual o homem justo é capacitado a enxergar para além das frustrações presentes e contemplar a justiça eterna a operar incessantemente no mundo. Sigionote (1). Cfr. o título do #Sl 7. A raiz hebraica SGN significa "cambaleio"; portanto, trata-se de um cântico selvagem, entusiástico. Mas a Septuaginta, aqui, subentende "Neginote", isto é, "instrumentos de cordas", como no versículo 19. No meio dos anos (2). A Septuaginta tem: "no meio das duas criaturas", um interessante texto que, no Pseudo-Mateus, um dos evangelhos apócrifos, é considerado como uma profecia sobre a natividade, portanto, isso explica o boi e o asno, nas gravuras convencionais natalinas, perto do Salvador infante. >Hc-3.3 Deus veio de Temã (3). Quanto aos tempos verbais, ver anotação acima. Temã era um distrito de Edom; isso, pois, significa o próprio Edom. Cfr. #Am 1.12. Parã (3); parte da região do Sinai; cfr. #Dt 33.2. Ver também #Jz 5.4-5; #Sl 68.7-8. Raios brilhantes (4), provavelmente uma alusão aos lampejos dos raios. A vinda de Deus é pintada como uma tempestade que rolava partindo do sul, a cair sobre a Palestina e seus vizinhos. Mão (4); isto é, "lado", como em #1Sm 4.13, onde o hebraico diz lit., "pela mão do caminho". Ali (4); isto é, "naquele lugar". Mediu a terra (6). A Septuaginta diz: "a terra estremeceu". A sugestão é de um terremoto que acompanhou a tempestade. Cusã (7); uma tribo midianita ou árabe (cfr. #Nm 12.1). Ou poderia ser Cusã-Risataim (#Jz 3.8,10) ou o ribeiro de Quisom (#Jz 4.7). >Hc-3.9 O versículo 9 é extremamente obscuro. "Cerca de cem traduções diferentes têm sido feitas desse versículo" (Delitzsch). O sol e a lua pararam (11). Uma descrição poética de terem sido ocultos pelas escuras nuvens da tempestade. Tu saíste (13); algumas versões, em suas notas à margem, julgam que se trata aqui da prometida libertação de Israel das mãos do opressor, garantida por Deus, e que Miquéias considerava como já realizada, tão certa ela era, ainda que para ele ainda estivesse no futuro. Até ao pescoço (13) pode ser uma parte de um edifício; cfr. #Is 8.8. A cabeça dos seus guerreiros (14). Esta versão, como outras, segue a Vulgata. Há versões que traduzem: "A cabeça de suas vilas". Contudo, o hebraico, é incerto. O versículo 16 é novamente difícil. Quanto a descanse eu, Welhausen sugere: "consolar-me-ei". Essa certeza ou determinação em esperar quietamente que o dia de tribulação sobrevenha contra o agressor provavelmente explica a bela expressão que diz "vivendo pela fé" dada nos versículos 17-18. É o conhecimento que eventualmente, conforme ele diz, me alegrarei no Senhor, que capacitou Habacuque a suportar seu presente descontentamento. Desse modo ele descobre a resposta para sua pergunta inicial. >Hc-3.19 A última frase do versículo 19 aparece, na Septuaginta, como "para que eu possa conquistar por seu cântico". O cantor-mor era mestre da música no templo.

domingo, 22 de julho de 2012


CAPÍTULO 9 MARTÍRIO DO SEXTO DOS SETE IRMÃOS. Depois da morte do quinto dos irmãos, trouxeram o sexto, que era muito jovem. Antioco perguntou-lhe se ele não queria salvar a vida, comendo a carne que ele havia ordenado comer e ele respondeu: "É verdade que quanto à idade eu sou mais moço que meus irmãos, mas não tenho menor firmeza e coragem do que eles. Como fomos educados juntos e instruídos nos mesmos sentimen¬tos, eu os conservarei como eles, até à morte. Por isso, se resolvestes fazer ator¬mentar-me porque eu não quero comer dessas iguarias, que nossa lei proíbe, não deveis perder tempo". Estenderam-no então sobre a roda, para queimá-lo a fogo lento, furaram-lhe todas as partes do corpo até às entranhas, com peque¬nas pontas de ferro, bem agudas, que haviam feito ficar rubras no fogo. Ele permaneceu intrépido nesse combate e disse, dirigindo-se a Antioco: "Feliz e glorioso tormento que, sobre tantos irmãos não lhe puderam vencer a constân¬cia, porque todos eles o sofreram pela própria religião e uma consciência pura acompanhada pelas boas obras, é invencível. Inimigo dos servos de Deus, estou pronto a morrer com meus irmãos e a ser como eles para vossa alma criminosa, um objeto de horror que a atormentará sem cessar. Por mais jovens que sejamos, triunfaremos de vossa tirania, sem que esteja em vosso poder fazer-nos experi¬mentar essa comida, de que não poderia eu me servir sem sacrilégio. Nós só encontramos frescura no fogo e alegria nos tormentos, porque desejando execu¬tar, não as ordens de um tirano, mas as de Deus, nossa resolução é inquebrantá-vel". Mal havia acabado de dizer estas palavras, lançaram-no a uma caldeira, onde terminou sua vida mortal para passar à eterna. CAPÍTULO 10 MARTÍRIO DO ÚLTIMO DOS SETE IRMÃOS. Trouxeram em seguida o mais jovem e o último dos sete irmãos. Antioco não pôde deixar de sentir dó: estavam para amarrá-lo, quando ele o chamou e procu¬rou persuadi-lo a obedecer-lhe: "Vistes de que modo vossos irmãos terminaram a vida no meio dos tormentos. Não imiteis seu exemplo. Tornai-vos, ao contrário, digno de meu afeto e das graças que estou disposto a fazer-vos e a vos honrar". Depois de ter dito estas palavras, mandou buscar sua mãe e disse-lhe quanto a lastimava por lhe haverem arrebatado tantos filhos. Exortou-a a fazer o possível para salvar o único que lhe restava, persuadindo-o a fazer o que ele desejava. A generosa mulher, em vez de seguir essa ordem, fortaleceu ainda mais o filho em sua resolução, falando-lhe em hebreu; então ele disse aos guardas: "Desamarrai-me, a fim de que eu possa dizer ao rei, na presença daqueles em quem mais ele confia, coisas que eu lhe tendo a dizer". Desataram-no imediatamente com gran¬de alegria e ele correu ao lugar onde o fogo estava aceso para queimá-lo, excla¬mando: "Oh! cruel e ímpio, o mais cruel e o mais ímpio de todos os tiranos, não foi Deus quem vos pôs a coroa na cabeça? E sentis prazer em fazer morrer seus servos nos mais horríveis tormentos, porque eles lhe querem ser fiéis? Sua justiça vos pedirá contas de seu sangue e vós vos queimareis num fogo que não será somente muito mais ardente do que o que a vossa crueldade fez acender e vossos tormen¬tos serão sem fim. O furor dos animais ferozes não é comparável ao vosso! Eles pelo menos poupam seu semelhante. Vós, como homem, sentis prazer em fazer sofrer homens, o que não podemos pensar, sem horror. Mas, morrendo com cons¬tância invencível, eles satisfazem plenamente ao que devem a Deus, ao passo que, por maiores que sejam as penas que sofrereis na outra vida, não poderiam expiar tão grande crime, como o de fazerdes morrer pela mais detestável de todas as injustiças, pessoas, não somente inocentes, mas muito justas. Eis-me pronto a se¬gui-los. Quero fazer ver que sendo seu irmão, não degenero de sua virtude". Di¬zendo estas palavras, lançou-se ao fogo e morreu. CAPÍTULO 11 DE QUE MANEIRA ESSES SETE IRMÃOS HAVIAM SE EXORTADO RECIPROCAMENTE NO MARTÍRIO. Que pode melhor provar que a razão, a qual inspira sentimentos tão virtuosos e tão generosos e triunfa sobre as paixões, do que a constância com que esses sete irmãos desprezam até a morte, os mais horríveis de todos os tormentos, tornando-se vencedores quando outros, vencidos pela fraqueza, comiam da car¬ne de animais imundos, oferecidos em sacrifícios detestáveis? Podemos então assaz agradecer a Deus ter-nos dado essa razão que nos faz triunfar sobre as paixões e as dores. Foi pela força da razão que esses sete irmãos resistiram ao poder do fogo e foram como outras tantas torres, solidamente erguidas à beira-mar, que desprezam o esforço e o ímpeto das ondas, dos ventos e das vagas. Para se exortarem uns aos outros à firmeza em sua resolução, um dizia: "O nas¬cimento nos uniu, não nos separemos na morte, mas demos todos juntos nossa vida pela defesa de nossa religião. Imitemos os três moços que caminharam sem temor sobre as chamas ardentes na fornalha de Babilônia e não mostremos me¬nos zelo do que eles pela observância da lei de Deus". Um outro dizia: "Cora¬gem, meus irmãos!" Outro: "Devemos permanecer firmes até o último suspiro". Um outro dizia: "Lembremo-nos de que somos descendentes de Abraão, que, para mostrar a Deus sua obediência, ofereceu-lhe Isaque, seu filho, em sacrifí¬cio". Assim, todos animavam-se nesse glorioso combate, com uma generosidade incomparável e fortalecendo-se cada vez mais, diziam: "Oferecemos de todo o nosso coração a Deus a vida que dEle recebemos, para empregá-la em defender suas santas leis. Não tememos aqueles que só podem matar o corpo, porque sabemos que tormentos eternos esperam num outro mundo os que não guar¬dam seus mandamentos e nos devemos armar de uma firme resolução de obe¬decer à sua vontade, a fim de que, depois de nossa morte, Abraão, Isaque e Jacó, e nossos outros santos predecessores, nos recebam com alegria para participar¬mos de sua glória". Quando um dos irmãos era atormentado, os outros que ainda viviam diziam-lhe: "Não envergonhes, irmão, nem a nós, nem aos que acabaram de expirar. Não sabes que nada é mais agradável a Deus, nem lhe deve ser mais forte, do que esse laço de amor com que sua sabedoria infinita uniu os irmãos? Eles quis que eles devessem uma parte de seu ser aos pais; que as mães os concebessem em seu seio e eles aí fossem formados, aí ficassem durante o mesmo tempo e fossem alimenta¬dos com o mesmo e gerados da mesma maneira, recebendo a alma e, depois de terem visto a luz do dia, tirassem o alimento da mesma fonte, sugando o mesmo leite, fossem tomado nos mesmos braços, criados, educados e instruídos da mes¬ma maneira na lei de Deus e nas santas práticas de nossa religião". Assim, esses sete irmãos, numa mesma e estreita união, exortavam-se uns aos outros, porque a maneira como tinham sido educados acrescentava ainda a pie¬dade ao seu afeto fraterno e a natureza era fortalecida pela virtude, sem que a magnitude dos tormentos dos que os haviam precedido na morte lhes fosse capaz de causar horror. CAPÍTULO 12 ELOGIOS DOS SETE IRMÃOS. Esses admiráveis irmãos, exortando-se assim uns aos outros, a sofrer tantos tormentos, mostraram que não somente não os desprezavam, mas sua fé os tornava vencedores sobre o afeto fraterno. Mais elevados por sua resolução, que os reis por seu poderio, e mais livres sob os ferros do que os príncipes mais temíveis sobre o trono, nenhum deles mostrou o menor temor, nem hesitou um minuto sequer em se expor à morte: mas considerando o martírio como um caminho que leva à imortalidade, para lá correram e com alegria. Do mesmo modo que a alma fez mover as mãos e os pés, assim estes sete irmãos, que eram como se animados por uma só alma, impelidos por ela, procuraram uma morte que os tornou dignos, por sua piedade, de viver para sempre no céu. Feliz o número sete que se encontra nesses irmãos. Não tendes uma santa relação com os sete dias que formam o ciclo da semana, empregado por Deus para a criação do mundo e para descansar depois de ter realizado tão grande obra? Não pode-ríamos, sem estremecer, ouvir falar de vossos sofrimentos; e vós, bem-aventura-dos mártires, não tendes somente, sem vos assustar, ouvido as ameaças de um príncipe enfurecido; não tendes somente visto sem temor o fogo, as rodas, as unhas de ferro e todos os outros tormentos que vos estavam preparados; mas os sofrestes sem vos comoverdes e mostrastes que o poder que eles tinham sobre vossos corpos era inferior à constância tão maravilhosa como a vossa. CAPÍTULO 13 ELOGIO DA MÃE DESSES ADMIRÁVEIS MÁRTIRES E DE COMO ELA OS FORTALECIA NA RESOLUÇÃO DE DAR A VIDA PARA A DEFESA DA LEI DE DEUS. Devemos talvez nos admirar de que tão firme resolução tenha triunfado sobre os tormentos, no sexo mais forte, quando vemos que admirável mulher, de quem os sete irmãos tinham recebido a vida, sofreu sozinha tanto quanto todos eles juntos? Podemos talvez duvidar de que seu amor materno não os tenha feito sentir todas as penas, quando vemos a dor, mesmo em animais, como as abe-lhas, embora naturalmente mansas, servem-se de seu ferrão, como de uma espada, para repelir os moscardos que querem entrar em suas colmeias e os perse¬guem até à morte, para defender os filhos? Embora essa generosa mãe, de que falamos, tivesse sete filhos, ela não amava menos a nenhum deles, como Abraão amava Isaque, seu único filho, e, entretanto, na necessidade em que se encontra¬vam, de se expor à morte para observar a lei de Deus ou violá-la, para salvar a vida, ela sentiu-se arrebatada, por ver que eles preferiam uma felicidade eterna a sofrimentos passageiros. Quem não sabe que por mais amor que os pais sintam por seus filhos, nos quais eles de algum modo imprimiram o caráter de sua alma e de sua semelhança, o das mães o sobrepujava ainda, porque jamais a teve como a destes sete irmãos. Ela não os tinha somente como os outros trazido em seu seio e tido por todos eles tantos cuidados e tantas penas, mas os tinha edu¬cado a todos no temor de Deus e não tendo outro desejo que sua salvação, ela os amava tanto mais, quanto via que lhes eram muito fiéis, pois eram todos sensa¬tos, virtuosos, generosos e tão unidos e tinham tão grande respeito por ela, que cumpriram até à morte as instruções que lhes havia dado. Mas, por mais extraor¬dinário que fosse o amor que ela lhes tinha e embora suas entranhas fossem rasgadas vendo-os sofrer tantos tormentos, nada pôde abalar sua admirável for¬taleza. A piedade triunfou em seu coração, sobre os sentimentos da natureza, e ela acompanhou-os todos à morte; sem demonstrar jamais a menor fraqueza, ela viu o fogo devorar-lhes a carne, os dedos das mãos e dos pés, espalhados pelo chão e a pele arrancada da cabeça e da maior parte de seus corpos. Santa mu¬lher, que outra mãe como vós pode dizer ter experimentado na pessoa de seus filhos e as dores mais cruéis do mundo e de todos os entes que deu no mundo, nem um só deu mostras de fraqueza em sua piedade: Vistes morrer o primeiro, sem que vossa constância se abalasse; vistes o segundo expirar, sem mostrar fraqueza ou desalento; vistes com os olhos enxutos tudo o que sofreram os de¬mais, sua carne grelhada, suas mãos e cabeça decepadas, o resto de seus corpos amontoados uns sobre os outros. Considerastes todos os tormentos como pro¬vas de sua virtude e nenhuma harmonia é tão agradável aos que a música arreba¬ta, como era o concerto de suas vozes unidas à vossa, quando eles suportavam tantos tormentos. Aquela grande alma tinha visto de um lado a morte de seus filhos, inevitável, se eles continuassem em sua resolução; e do outro, sua vida garantida, se obedecessem às ordens do rei, e sentia por eles a maior ternura de que é capaz um coração materno; mais ela os amava, menos desejava o prolon¬gamento de sua vida, por um pouco de tempo, que lhes teria, ao invés, dado a morte para sempre; mostrou que era uma verdadeira filha de Abraão, preferindo com coragem invencível, Deus a todas as coisas. Oh! mãe que mantivestes a honra das nossas santas leis e a santidade de nossa religião, que trouxestes ao vosso lado estes generosos combatentes, que tão corajosamente as defenderam, devemos comparar-vos talvez, à arca, pois do mesmo modo que no dilúvio uni¬versal ela salvou do furor das ondas tudo o que restava da raça dos homens, assim vós levastes àqueles, que num dilúvio de tormentos, saíram, vencedores da crueldade dos carrascos e os fortificastes com vossa admirável constância e vossa heróica piedade, poderemos duvidar de que uma resolução santamente tomada não domine os sentidos, quando vemos a mãe, já idosa, permanecer firme no meio da mais terrível tempestade que possa agitar um coração, vendo sete de seus filhos morrerem diante de seus olhos, da maneira mais cruel do mundo? Que homens jamais demonstraram tão grande coragem? O furor dos leões aos quais Daniel foi exposto e o ardor da fornalha onde Misael e seus companheiros foram atirados, tinham algo de mais terrível do que o fogo do amor que devora¬va as entranhas dessa mãe, pela dor de ver arrancar de seus braços todos os filhos, para mandá-los aos mais atrozes suplícios? Mas, foi nesse combate que a razão fez triunfar sua virtude sobre os sentimentos mais vivos da natureza. Do contrário, como poderia ser, que uma mulher e mãe, não tivesse dito de si mes¬ma: "Mãe infeliz, a mais infeliz que se possa imaginar, dei ao mundo sete filhos só para hoje vê-los arrebatados de meus braços, sem que me reste nem mesmo um só deles? Foi em vão que eu sofri a dor de tantos partos, que eu criei todos esses filhos com meu leite e os eduquei com tanto cuidado? Não somente não vos verei mais, meus caros filhos, mas não verei nem mesmo vossos filhos e perderei assim o doce nome de mãe, depois de o ter possuído com tanta alegria, pela consolação que vós mesmos me proporcionáveis por vossa virtude que ne¬nhuma outra jamais foi mais feliz. Na minha idade estou sozinha, consumida pela dor, sem que der tantos filhos que tive, haja pelo menos um de quem eu possa receber a honra da sepultura." Essa santa mulher estava muito longe de ter pensamentos tão humanos e tão carnais. Ela não se contentou em não afastar seus filhos de sua resolução, de sofrer a mesma morte mas também de não queixar-se nem lamentá-los, depois de terem morrido. Como se seu coração fosse de bronze, ela os incitava e os exortava a dar sem temor uma vida mortal para conquistar uma imortal. Generosa mãe, que num sexo frágil, como um soldado envelhecido nas armas, demonstrastes tanta firmeza, que saístes vencedora por vossa constância do furor de um tirano e demonstrastes nas vossas palavras e nas vossas ações mais coragem do que homens, os mais valentes, nunca poderemos assaz admirar a maneira como falastes aos vossos fi¬lhos, quando depois de ter sido aprisionado e levada com eles, vistes o santo e venerável ancião Eleazar atormentado e lhes dissestes então: "Meus caros filhos, jamais combate foi mais glorioso que aqueles que estais empreendendo. Trata-se de defender a santidade de nossa religião e que vergonha para vós, no vigor da idade, temer sofrer por ela dores que um ancião sofre com tanta firmeza. Lembrai-vos de que recebestes de Deus, criador do universo, a vida que lhe ides oferecer. Imaginai com que solicitude Abraão, nosso pai, ofereceu-lhe Isaque em sacrifício, embora ele o considerasse com olhe devendo dar um número indefinido de des¬cendentes. Pensai com que coragem Isaque em vez de se espantar, por ver armada a mão de seu pai, contra ele, apresentou-se para ser imolado. Tende presente aos vossos olhos a constância de Daniel, quando o expuseram aos leões, e a de Ananias, de Azarias e de Misael, quando os lançaram na fornalha de Babilônia. Pois que tendes, meus filhos, a mesma fé, mostrai a mesma resolução. Como tendo diante dos olhos tais objetos, vossa piedade poderia não sair vitoriosa dos tormentos que vos são preparados?" Tais as palavras dessa mulher forte que ninguém jamais po¬deria assaz louvar; e elas fizeram tal impressão no espírito desses sete irmãos, tão dignos de tê-la por mãe, que, tendo todos morrido parta não faltar ao que deviam a Deus, vivem agora com ele, na companhia de Abraão, de Isaque, de jacó e dos outros patriarcas. CAPÍTULO 14 MARTÍRIO DA MÃE DOS MACABEUS. SEU ELOGIO E DE SEUS FILHOS, BEM COMO DE ELEAZAR. Depois que os sete irmãos terminaram a vida da maneira como descrevi, leva¬ram também a Antíoco a santa mãe. Atiraram-na ao fogo e aquela mulher forte, bom como seus filhos, teve a glória de triunfar sobre o tirano. Ela foi como um soberano edifício, de tal modo sustentado por eles, como por outras tantas colu¬nas, que nenhum tormento jamais foi capaz de abalar. Ela agora goza no céu da recompensa de seus sofrimentos e de sua fé e resplandece com seus filhos, de uma luz mais viva do que a da lua e das estrelas. Devemos prestar-lhes a honra, que lhes é devida, por terem sustentado combates, que causam horror aos mes-mos algozes que os atormentaram, com tão espantosa crueldade, tornando-os sempre presentes aos olhos da posteridade, por esta história, que merecia ser gravada sobre o bronze de um magnífico túmulo, a fim de que nossa nação jamais viesse a esquecê-los. ilustre ancião, ilustres irmãos, resististes a todos os esforços desse cruel príncipe, que queria abolir nossas santas leis e com os olhos em Deus vós lhe resististes até à morte, no meio dos maiores tormentos. Jamais combate foi mais divino, pois só foi empreendido pela glória de Deus e jamais a virtude, provada pela paciência, triunfou com maior brilho. Eleazar, por primei¬ro, entrou na arena. Os sete irmãos seguiram-no. Sua mãe palmilhou o mesmo caminho. O tirano fez tudo o que o furor mais implacável lhe poderia inspirar; o mundo foi espectador do combate, a piedade saiu vitoriosa e os que a tinham tão generosamente defendido, foram coroados. Como poderíamos não admirá-los e não ficarmos comovidos pelos seus sofrimentos, pois, o mesmo Antíoco e todos os seus ficaram atônitos e fora de si? O sangue desses admiráveis mártires aplacou a cólera de Deus, salvou o povo e deu-lhes a paz, quando havia mesmo probabilidade de esperá-lo. O príncipe concebeu tal estima por sua coragem e perseverança, que os propôs como exemplo aos seus soldados e fortificou suas tropas com um grande número de judeus, que o serviram valentemente, dando-lhe mesmo muitas vitórias. Israelitas, raça de Abraão, jamais abandoneis vossas santas leis, mas observai-as mui religiosamente e reconhecei que a razão acompanhada pela piedade do¬mina as paixões. Quanto a Antíoco, cruel príncipe, foi castigado neste mundo e o é ainda agora no outro. Vendo que lhe era impossível obrigar os judeus a renunciar à sua religião, ele saiu de Jerusalém para ir fazer guerra na Peréia e lá morreu miseravelmente. É de mister terminar: creio, não poderia fazê-lo de modo melhor, do que referindo as palavras daquela admirável mãe a seus filhos: "Meus filhos, passei o tempo de minha virgindade com todo o pudor da virtude que se pode exigir de uma donzela e minha juventude, no casamento, com toda a honestidade que deve ter uma mãe de família. Quando começáveis a progredir nos anos, perdestes vosso pai. Ele tinha vivido santamente e suportado com paciência privar-se du¬rante alguns anos da consolação de ter filhos. Ele vos instruiu nas leis e nos pro¬fetas, falou-vos sobre o assassínio de Abel, por Caim, seu irmão, sobre o sacrifício de Isaque, a prisão de José, o zelo de Finéias; disse-vos da fossa dos leões onde haviam atirado a Daniel, da fornalha de babilônia, onde Ananias, Azarias e Misael foram lançados; citou-vos estas palavras de Isaías: Quando estiverdes no meio do fogo não experimentareis o ardor de suas chamas; este Salmo de Davi: Os sofrimen¬tos são a herança dos justos; estas, de Salomão: O Senhor é como a árvore da vida para todos os que fazem a sua vontade. Estas, de Ezequiel: Ele reanimara um dia seus ossos dissecados; estas, de um cântico de Moisés: Eu sou o Senhor; eu mato e eu vivifico. Meus filhos, esse Deus Todo-poderoso, Eterno, que é a vossa vida, Ele somente pode prolongar vossos dias na eternidade." Quantas amarguras nesta vida! Como esses sete irmãos, ao contrário, encon¬traram consolação e doçura quando os lançaram nas caldeiras de óleo fervente, quando lhes arrancaram os olhos, cortaram a língua e exalaram o último suspiro no meio de todos os tormentos que a crueldade mais desumana poderia inven¬tar. A justiça de Deus faz agora sofrer o castigo a esse malvado soberano, e as almas puras desses verdadeiros filhos de Abraão e de sua bem-aventurada mãe, como recompensa de suas penas e sofrimentos, recebem no céu com os santos antepassados coroas imortais, das mãos de Deus, ao qual seja dada honra e gló¬ria por todos os séculos dos séculos. Relato de Fílon Prefácio de Fílon Até quando uniremos a velhice com a infância e seremos, de cabelos brancos, tão imprudentes como as crianças? Que maior imprudência pode haver do que considerar a fortuna como coisa certa, embora nada haja de mais inconstante, e considerar esta natureza imutá¬vel, como se ela estivesse sujeita a contínuas mudanças? Não seria inverter a ordem, como se se brincasse com dados, encarando assim as coisas incertas como mais firmes e duradouras do que as certas? A razão de tal erro vem de que os objetos presentes impressionam muito mais os homens pouco experimenta¬dos do que os objetos afastados, e eles prestam mais fé aos sentidos, ainda que enganadores, do que às reflexões que seu espírito poderia fazer, porque nada é mais fácil do que se deixar levar pelo que se apresenta aos nossos olhos; ao passo que é preciso raciocínio para se compreender as coisas futuras e as invisíveis. Não é que a alma tenha a vista mais penetrante que o corpo, mas alguns aguçam-na pela sua intemperança no comer e no beber, e outros, por sua estupidez, que é o maior de todos os defeitos. Tantos fatos tão extraordinários, acontecidos em nosso século, obrigam-nos a crer que há uma Providência, e que Deus cuida dos homens virtuosos que a Ele recorrem em suas necessidades e, particularmente, daqueles que são consagra¬dos ao seu serviço. Eles são como uma herança desse supremo soberano, cujo império não tem limites. Os caldeus dão-lhes o nome de Israel, isto é, que vêem a Deus; o que é uma felicidade preferível a todos os tesouros da terra, pois se a presença daqueles que a idade torna veneráveis, de nossos preceptores, de nos¬sos superiores, e de nossos parentes nos incute tal respeito, que nos corrige de nossos defeitos e nos leva à virtude, que vantagem não é, para nos fortalecer, elevarmos nossa alma acima de todas as coisas criadas, para nos acostumarmos a considerar a Deus, que não somente é incriado, mas infinitamente bom, infinita¬mente belo, infinitamente feliz, ou melhor, cuja bondade sobrepuja a toda bondade; cuja beleza, a toda beleza e cuja felicidade, a toda felicidade, o que explica apenas imperfeitamente a sua grandeza? Como as palavras seriam capazes de o representar, se Ele é tão superior a tudo que depois dos esforços do nosso espíri¬to para se elevar a Ele, como por outros tantos degraus, pelos atributos que lhe dá, é até obrigado a voltar atrás, sem poder se aproximar dEle e sem poder conhecê-lo, porque Ele é de tal modo incompreensível, que mesmo quando to¬das as criaturas se tivessem mudado em tantas línguas, não poderiam exprimir o soberano poder, pelo qual Ele criou todas as coisas, o proceder real digno de um monarca eterno, pelo qual conserva o mundo, e a justa distribuição das recom¬pensas e dos sofrimentos que fazem, que se possam colocar mesmo seus casti¬gos no número dos benefícios, não somente como fazendo parte da justiça, mas porque eles servem freqüentemente para converter os pecadores, ou pelo me¬nos para impedir que continuem em seus crimes, pelo temor dos castigos que vêem os outros sofrer. Livro Único CAPÍTULO 1 EM QUE INCRÍVEL FELICIDADE PASSARAM-SE OS SETE PRIMEIROS MESES DO REINADO DO IMPERADOR CAIO CALÍGULA. O imperador Caio Calígula é um exemplo ilustre do que eu acabo de dizer. Jamais se viu maior tranqüilidade do que a de que todas as províncias gozavam, tanto no mar como na terra, quando ele subiu ao trono do império, depois da morte de Tibério. O Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, viviam em profunda paz; os gregos não tinham questões com os bárbaros e os soldados viviam em união com os habitantes das cida¬des. Tão grande felicidade parecia inacreditável e não se podia assaz admirar de como esse jovem príncipe subindo ao trono, se visse cumulado de tanta prosperidade e de que seus desejos não podiam ir além de sua felicidade. Ele possuía riquezas imensas, grandes extensões de terras e rendimentos prodigiosos, que lhe vinham como de uma fonte inesgotável de todas as partes do mundo naquele tempo habitavel. Seu império era limitado pelo Reno e pelo Eufrates; o primeiro, separando-o da Alemanha e daque¬las outras nações ferozes, e o Eufrates dos partos, dos sarmatas e dos citas, que não são inferiores aos alemães em ferocidade. Assim, poder-se-ia dizer que desde o nascer do sol até o seu ocaso, tanto sobre a terra como nas ilhas e mesmo além do mar, todos viviam alegres e felizes e o povo romano, com toda a Itália e as províncias da Europa e da Ásia, passavam seus dias numa festa perpétua, porque jamais se havia visto, sob o reinado de nenhum outro imperador, com o auxílio do céu, gozar-se em tão grande paz, dos próprios bens e ter-se tanta parte na felicidade pública, que nada mais restava a desejar. Em todas as cidades viam-se altares, vítimas, sacrifícios, mulheres vestidas de branco e coroadas de flores, rostos alegres, festas, jogos, concertos musicais, corridas de cavalo, banquetes, danças ao som de flautas e de harpa e todos os outros diverti-mentos imagináveis, sem que eu pudesse notar diferença entre o contentamento dos ricos e o dos pobres, das pessoas da nobreza e das do povo comum, dos senhores e dos escravos, dos devedores e dos credores. Um tempo tão feliz nivelava todas as condições; a verdade fazia quase se prestar fé ao que os poetas dizem em suas fábulas, do século de Saturno; sete meses passaram-se desse modo. CAPÍTULO 2 O IMPERADOR CAIO, NÃO TENDO AINDA REINADO SETE MESES, CAI GRAVEMENTE ENFERMO. MARAVILHOSO AFETO QUE TODAS AS PROVÍNCIAS DEMONSTRAM E INCRÍVEL ALEGRIA PELO SEU RESTABELECIMENTO. No mês seguinte esse felicíssimo imperador caiu gravemente enfermo, por-que tendo deixado sua maneira sóbria de viver, que lhe mantinha a saúde, o que ele fazia desde os tempos de Tibério, entregara-se à intemperança e ao luxo. Bebia demasiado vinho, comia em excesso, tomava banho em tempo inoportu¬no, recomeçava a comer e a beber depois de ter vomitado, abandonava-se a todos os desejos impudicos pelas mulheres, a voluptuosidades criminosas e por fim a todas as outras desordens que muito contribuem para alterar essa união do corpo com o espírito, que a temperança mantém na força e na saúde, ao passo que a intemperança as enfraquece e leva à enfermidades que causam a morte. Estava-se no começo do outono, que é quase a última estação do ano, própria para a navegação e o tempo em que aqueles que fazem comércio com os estrangei¬ros voltam para seu país. Assim, essa notícia foi levada como um raio por todo o mundo e mudou em tristeza a alegria na qual todos passavam docemente a vida. As cidades e as casas encheram-se de aflição e de tristeza; a enfermidade do imperador tornou-se a de todas as províncias e era ainda maior, porque ele sofria apenas do corpo e todos aqueles povos sofriam no espírito pelo temor de perder, com a paz, o gozo dos bens que ela traz, quando imaginavam que a morte dos imperadores era ordinariamente seguida pela carestia e por outros males que a guerra causa, e nada lhes parecia mais próprio para se evitar tudo isso do que a saúde de seu soberano. A doença, porém, começou a diminuir e a notícia espalhou-se imediatamen¬te, levando a alegria até os extremos da terra, porque nada corre tão rápido como a fama e todos esperavam com impaciência incrível tão feliz notícia. Quan¬do souberam que o imperador tinha recobrado completamente a saúde, pare¬cia-lhes ter com ele recobrado a própria e a sua primeira felicidade. Não se tem recordação de alegria mais geral; parecia que se tivesse passado num momento, de uma vida selvagem e rústica a uma vida doce e sociavel, dos desertos para as cidades e da desordem para a ordem, pela felicidade de se estar sob o governo de um chefe tão benévolo e legítimo. CAPÍTULO 3 O IMPERADOR CAIO ENTREGA-SE A TODA SORTE DE DEVASSIDÃO E DE CRIMES, E POR UMA HORRÍVEL INGRATIDÃO E UMA ESPANTOSA CRUELDADE OBRIGA O JOVEM TIBÉRIO, NETO DO IMPERADOR TIBÉRIO, A SE MATAR. Mas mui depressa se viu como o espírito humano é cego, como ele ignora o que lhe é útil e toma as sombras pela verdade. O soberano, que era considerado como um admirável benfeitor, cujas graças e favores se derramavam por toda a Europa e toda a Ásia, tornou-se um monstro de crueldade, ou melhor, manifes-tou a que tinha nascido com ele e que tinha até então dissimulado. O imperador Tibério tivera de Druso, seu filho, que morrera antes dele, o jovem Tibério, e tivera de Germânico, seu sobrinho, Caio Calígula, que preferira a Tibério, na sucessão ao trono, com a condição de reconhecer um tão grande benefício, pela maneira como viveria com seu neto. Mas Caio, em vez de se comover por ter rece¬bido com essa adoção o que pertencia ao jovem Tibério, por nascimento, levou sua ingratidão a tal excesso de desumanidade, que depois de ter sido causa de que ele perdesse o império, fê-lo também perder a vida, sob o pretexto de que tinha tentado contra a dele, como se uma pessoa de sua idade fosse capaz de tal ação; muitos julgam que se ele tivesse tido alguns anos mais, seu avô tê-lo-ia sem dúvida escolhi¬do para seu sucessor e ter-se-ia desfeito de Caio, de quem já começava a suspeitar. Eis como Caio procedeu para executar uma resolução tão detestável contra aquele, com o qual a justiça obrigava a dividir a suprema autoridade. Mandou vir o jovem Tibério, reuniu seus amigos e disse-lhes falando dele: "Eu não o amo somente como meu primo, mas como se ele fosse meu próprio irmão, e desejaria, de todo meu coração, poder agora associá-lo ao governo, para satisfazer à última vontade de Tibério, mas vedes que, sendo tão jovem, ele tem mais necessidade de governante do que de ser governador. Se não fosse isso, quanta alegria não senti¬ria eu de poder dividir com ele uma parte tão grande do peso, como o de governar tantos povos! Como meu afeto por ele a isso me obriga, eu vos declaro que estou disposto a servir-lhe não somente de preceptor, mas de pai; quero que assim ele me chame, e eu o chamarei, daqui por diante, de meu filho". Depois que Caio com este ardil enganou a todos os seus ouvintes e com essa fingida adoção, tirou, em vez de dar ao pobre príncipe, a parte que lhe tocava no império, não encontrou mais obstáculo para fazê-lo cair na armadilha preparada, porque as leis romanas dão aos pais um poder absoluto sobre os filhos, e esse supre¬mo grau de autoridade em que ele se achava não deixava a ninguém a liberdade de lhe perguntar a razão do que ele fazia. Assim, considerando o jovem príncipe como inimigo, tratou-o como tal, sem se deixar comover nem pela idade, nem por ter sido educado com ele, na esperança de poder suceder ao avô, ao qual, depois da morte de seu pai, ele tinha o lugar de filho e não somente o de neto. Diz-se que para executar o seu projeto ele ordenou-lhe que se matasse na presença dos tribunos e dos oficiais, proibindo-lhes que o ajudassem nessa ação, porque os descendentes dos imperadores só podem morrer por suas próprias mãos, pois ele ainda queria passar por um grande observante das leis, violando-as; por religioso, cometendo um grande crime, não temia zombar da verdade, com tão estranha hipocrisia. Então o pobre moço, que jamais havia presenciado qualquer gênero de morte e nunca tomara parte naqueles combates falsos nos quais os moços e os jovens príncipes em tempo de paz se exercitam, apresentou a garganta ao primeiro que encontrou e todos recusaram-se matá-lo; ele então tomou um punhal e perguntou em que lugar devia ferir. Concederam-lhe o favor de lho mostrar e assim instruído por aqueles caridosos mestres, ele feriu-se com tantos golpes, que, por uma deplorável imposição, foi assassino de si mesmo. CAPÍTULO 4 CAIO MANDA MATAR MACROM, COMANDANTE DA GUARDA PRETORIANA, AO QUAL ELE DEVIA A VIDA E O IMPÉRIO. Depois que Caio resolveu o assunto mais importante para ele, ninguém mais resta¬va que tivesse o direito de lhe disputar o trono e a quem aqueles que quisessem perturbar a ordem se pudessem juntar; preparou-se então para descarregar sobre Macrom os efeitos de sua crueldade e de sua ingratidão. Ele não somente o tinha servido muito bem, depois que ele subira ao trono, o que é coisa comum, porque a boa sorte sempre tem aduladores, mas fora também a causa da escolha que Tibério tinha feito dele para seu sucessor. Pois, além de que jamais príncipe teve o espírito mais penetrante do que este imperador, a experiência adquirida com a idade dava-lhe o conhecimento dos pensamentos mais secretos dos homens, e ele tinha concebido graves suspeitas de Caio. Julgava-o inimigo de toda a família dos Cláudios; estava persuadido de que ele não tinha afeto algum pelos da sua origem, do lado materno, e temia por Tibério, o neto, se o deixasse em tenra idade. Além disso, ele julgava Caio incapaz de governar tão grande império, por causa da leviandade de seu espírito, que parecia ter algo de loucura, tanto se via pouca firmeza em suas palavras e em suas ações. Tudo, porém, Macrom fez para dissipar essas dúvidas e suspeitas e particular¬mente o temor que ele tinha pelo neto; ele afirmava-lhe que Caio tinha por ele grande respeito, muito afeto como primo, e que lhe cederia de boa vontade o império; que só se devia atribuir ao pudor e ao seu retraimento o que todos julgavam espírito fraco. Macrom via que essas razões não persuadiam a Tibério e não temia oferecer-se a ele como garantia: o príncipe não podia duvidar de sua sinceridade e de sua fidelidade, depois das provas que lhe havia dado, descobrindo e sufocando-lhe a conspiração de Sejam. Por fim, louvava-lhe continuamente a Caio, se louvar uma pessoa é querer justificá-la contra suspeitas incertas e acusações indeterminadas; mesmo que Caio fos¬se seu irmão e mesmo seu próprio filho, ele não teria podido fazer mais. Vários atribu¬íram a causa disso aos favores que Caio lhe prestava e ainda mais aos bons ofícios da mulher de Macrom, que, por uma razão oculta, falava continuamente a seu marido em seu favor e todos conhecem o poder da mulher, principalmente daquelas que são impudicas, porque não há adulação de que não se sirvam para esconder seus crimes aos maridos. Assim, como Macrom ignorava o que se passava em sua casa, ele atribuía esses artifícios ao afeto e seus maiores inimigos passavam em sua mente por pessoas que mais o amavam. O ter ele livrado Caio de tantos perigos não o deixava imaginar como ele fosse ingrato; falava-lhe assim com muita liberdade, no temor de que ele não se viesse a perder por si mesmo ou que outros corrompessem seu espírito. Ele se assemelhava àqueles bons operários, ciosos de seus trabalhos, que não podem tolerar que outros os estraguem. Assim, quando Caio dormia à mesa, ele o despertava, dizen¬do que aquilo não lhe ficava bem, nem mesmo era seguro, porque poder-se-ia facil¬mente tentar contra sua vida. Quando ele contemplava os dançarinos e saltadores com prazer e atenção extraordinárias, imitando-lhes os gestos, ou quando ele não se contentava de sorrir, mas desatava em gargalhadas ante os gracejos dos comediantes e dos palhaços, ou quando ele unia sua voz às dos músicos e cantores, ele o tocava levemente, quando lhe estava perto, para impedir que continuasse e dizia-lhe ao ouvido, o que somente ele teria coragem de fazer: "Não deveis, como os outros homens, vos abandonardes aos prazeres dos sentidos, mas sobrepujá-los tanto em prudência e em sabedoria, quanto estais elevado acima deles. Como é que um príncipe que gover¬na toda a terra não sabe se moderar em coisas tão desprezíveis? Tão grande glória como a que vos rodeia vos obriga a nada fazer indigno da majestade de chefe de tão poderoso e temido império. Assim, quer estejais no teatro, nos lugares de exercício público, não é o espetáculo que deveis principalmente considerar, mas o trabalho, o cuidado que aqueles que vo-lo apresentam, empregaram para bem realizá-lo, e dizer em vós mesmo: Se eles fizeram tantos esforços para coisas inúteis à vida e se dedicam exclusivamente ao prazer dos espectadores, a fim de merecer serem coroados com grandes elogios e aplausos, que não deve fazer um príncipe que se dedica a um objetivo muito mais importante? Não sabeis que nenhum outro iguala ao de bem reinar, pois que produz a abundância em todos os lugares capazes de serem cultivados, garante a navegabilidade dos mares, o que faz que todas as províncias se comuniquem entre si e trafiquem seus bens para o aumento do comércio? A inveja e o ciúme, para impedir essa feliz comunicação, tinham envenenado alguns particulares e algumas cidades. Mas depois que vossa augusta família foi elevada a esse supremo grau de poder, que se estende sobre todas as terras e todos os mares, ela obrigou esses monstros a fugirem para os desertos mais afastados. Somente a vós foi confiada essa suprema autoridade. A Providência vos colocou à proa, como um digno piloto, para terdes o leme em vossa mãos. É vosso dever bem conduzir esse incomparável navio, do qual a salvação de todos é o rico carregamento. Como um cuidado tão nobre não tem preço, vós não deveis ter maior prazer que tornar felizes por vossos benefícios tantos povos que vos são sujeitos. Eles podem receber alguns, de outros, mas é somente do príncipe que eles devem esperar esse excelente proceder, pelo qual ele espalha a mãos-cheias, seus bens sobre eles, exceção feita daqueles que a prudência obriga a reservar, para reme¬diar aos acidentes que se devem prever". Foi assim que esse infeliz conselheiro exortou a Caio, para procurar torná-lo melhor. Mas esse malvado imperador mudava os remédios em veneno, zombava dessas ad¬vertências e tornava-se, ao invés, sempre pior. Assim, quando via Macrom chegar, dizia aos seus amigos e aos que estavam junto dele: "Aí vem o impertinente preceptor, ridículo pedagogo, que se quer meter a dar-me instruções, não a uma criança, mas a uma pessoa que é mais competente do que ele. Ele pretende que um súdito dê ordens a um imperador, que conhece a arte de reinar e julga ser perito nessa ciência. Mas eu quisera bem saber de quem ele teria podido aprender o que diz; eu fui instruído desde o berço por meu pai, meus irmãos, meus primos, meus avós, meus bisavós e tantos outros grandes príncipes, de quem sou descendente dos lados paterno e materno, sem falar das sementes de virtude que a mesma natureza introduz no sangue daqueles que ela destina a governar. Do mesmo modo que as crianças se assemelham aos genitores, não somente nos traços do rosto e nas qualidades da alma, mas também nos gestos, nas inclinações e nas ações, quem duvida de que aqueles que são de uma família acostumada a dominar não recebem, com a vida, uma disposição que os torna capazes de receber todas as impressões que formam um grande príncipe? Posso então dizer que quando minha mãe me trazia ainda em seu seio e antes mesmo que eu tivesse visto a luz do dia, eu fui instruído na ciência de reinar; um homem qualquer, cujos pensamentos nada têm de elevado e de nobre, ousará dar-me conselhos com relação ao governo do império, que são para ele mistérios insondáveis?" Assim, Caio concebia, cada vez mais, aversão por Macrom; procurava acusá-lo de falsos crimes, com pretextos de pouca probabilidade; julgou ter encontra¬do um por estas palavras que às vezes lhe escapavam: "O imperador é obra minha e ele não me deve menos obrigação do que àqueles que o puseram no mundo. Eu o livrei três vezes com meus rogos da cólera de Tibério, que o queria mandar matar, e depois de sua morte fi-lo declarar imperador, pela guarda pretoriana, que eu comandava, fazendo-lhes ver que o único meio de conservar o império inteiro era obedecer a um só". Muitos aprovavam estas palavras de Macrom, porque nada era mais verda¬deiro, e eles não conheciam ainda a leviandade e a dissimulação de Caio. Mas poucos dias depois, o infeliz Macrom e sua mulher perderam a vida. Foi assim que a ingratidão de Caio recompensou esse fiel servidor, por tê-lo salvo da morte e elevado ao trono do império. Diz-se que o obrigaram a se matar e que sua mulher não foi mais bem tratada do que ele, embora não se duvidasse de que ela tivera relações criminosas com Caio. Mas, que há de mais inconstante que o amor pelos desgostos que se encontram nos afetos desregrados? A crueldade de Caio chegou a mandar matar também todos os domésticos de Macrom. CAPÍTULO 5 CAIO MANDA MATAR MARCO SILANO, SEU SOGRO, PORQUE LHE DAVA SÁBIOS CONSELHOS. ESSE ASSASSÍNIO É SEGUIDO DE MUITOS OUTROS. Depois que esse pérfido príncipe se desfez do seu competidor ao império e de um homem ao qual ele devia o favor de ter sido elevado ao trono e mesmo a quem devia a própria vida, restava-lhe ainda um terceiro projeto a executar, e para isso ele empre¬gou toda a sua habilidade. Marco Silano, seu sogro, que era muito generoso e deu mui ilustre descendência, tinha, depois da perda da filha, que falecera muito jovem, conti¬nuado a mostrar a Caio a afeição, não somente de um sogro, mas de um verdadeiro pai, na persuasão de que, por ter a princesa falecido há pouco, também Caio conser¬varia para com ele os mesmos sentimentos. Assim, falava-lhe ele com grande liberda¬de, do procedimento que ele devia ter para corresponder por suas ações às esperanças que dele haviam concebido. Mas Caio era muito presunçoso, e em vez de reconhecer seus defeitos, gabava-se de ser exímio em todas as virtudes; considerava como inimi-gos os que lhe davam bons conselhos e tinha como injúrias os sábios avisos de Silano; este tornou-se-lhe insuportável e ele não pôde tolerá-lo por mais tempo, como um empecilho para as suas paixões desregradas. Afastou em seguida de sua memória, bem como do coração, a lembrança de sua esposa, e por uma crueldade mais que bárbara, mandou matar, à traição, aquele de quem ela tinha recebido a vida e que ele devia considerar como pai. A notícia desse assassínio, que foi seguido de muitos ou¬tros, de pessoas as mais ilustres do império, espalhou-se por toda parte e disso se falava com horror, mas em segredo, porque o temor não deixava os sentimentos manifesta¬rem-se. Entretanto, como o povo é muito fácil de se deixar enganar e tinha dificuldade em crer que um príncipe, que parecera tão bom e tão afável, se tivesse de tal modo mudado num momento, dizia para desculpá-lo: quanto à morte do jovem Tibério, o soberano poder não pode tolerar divisão; que ele tinha sido precedido por Caio, pois se sua idade lhe tivesse permitido, ele teria feito o mesmo que ele lhe fizera; que fora talvez por uma providência de Deus e para utilidade de toda a terra, que ele tinha perdido a vida, a fim de preservar o império de guerras civis e estrangeiras, que o teriam dividido pelas facções dos que abraçariam o partido desses dois príncipes: que nada é mais desejável do que a paz; e esta não subsiste senão pelo bom governo dos Estados, e um Estado só poderia ser bem governado por um único soberano, cuja autoridade mantém todas as coisas na tranqüilidade e na calma. Com relação a Macrom, ele se tinha tornado tão orgulho, que bem parecia ter-se esquecido daquelas belas palavras do oráculo de Delfos: Conhece-te a ti mesmo, o que é tão necessário que não podemos com esse conhecimento deixar de ser felizes, nem evitar sermos infelizes, quando não o temos; que era uma coisa intolerável, que Macrom se quisesse colocar acima do imperador, como se não tocasse aos príncipes governar e aos súditos, obedecer. Era assim que esses homens rudes interpretavam, por ignorância ou por bajulação, os salutares conselhos de Macrom. Com relação a Silano, eles diziam que era ridículo que ele pretendesse tanto poder sobre o genro, como um pai tem sobre o filho, visto mesmo que os pais, apenas cidadãos, são inferiores aos filhos quando elevados aos cargos e que tinha sido bem ingênuo, imaginando que, sendo apenas sogro, ele tinha o direito de imiscuir-se em coisas que não lhe competiam, sem considerar que a alian¬ça que o unia com o imperador tinha terminado pela morte da filha, pois os casamen¬tos são como ligações externas, que unem as famílias e terminam com a morte de uma da pessoas que os contrai. Tais eram as palavras que se diziam nas assembléias, para não se acusar o imperador de crueldade, porque tendo-se tido antes, somente motivo de se con-ceber dele uma opinião de grande bondade, não se podia, no momento, pensar como eu já disse, que ele se tivesse mudado de um instante para outro. CAPÍTULO 6 CAIO QUER SER ADORADO COMO UM SEMIDEUS. Ações tão criminosas, na mente de Caio, eram como outras tantas vitórias que ele obtivera sobre o que havia de mais ilustre no império. Seu furor tinha sufocado o brilho da família imperial no sangue do jovem Tibério, seu primo, que ele devia, ao invés, ter associado ao soberano poder. Sua espantosa desuma-nidade tinha ofendido a todo o Senado pela morte de Silano, seu sogro, que lhe era um dos mais belos ornamentos. Sua horrível ingratidão tinha feito perder a vida a Macrom, que ocupava a primeira linha na ordem dos cavaleiros e ao qual ele era devedor da grandeza em que se encontrava e à qual fora elevado. Julgou, então, que não havendo mais ninguém que se ousasse opor à sua vontade, ele não se devia somente contentar com as grande honras, que se costumam dar aos homens, mas podia aspirar às que se devem somente a Deus, e, diz-se, que para se persuadir a si mesmo de tão grande extravagância, assim ele raciocinava: "Como aqueles que conduzem manadas de bois, rebanhos de carneiros ou de cabras não são nem bois, nem carneiros, nem bodes, mas homens de uma natureza infinitamente mais digna e superior à dos animais, assim, do mesmo modo, os que governam a todos os homens, a todas as criaturas do mundo, merecem ser considerados como sendo mui¬to mais que simples homens, e devem ser tidos por deuses". Depois de ter metido em sua cabeça tão ridícula idéia e de ter tido a ousadia de assim se declarar, passou aos efeitos práticos, por gradações. Começou por querer passar por semideus, como Baco, Hércules, Castor e Pollux. Tritão, Anfiauro, Anfíloco e outros. Mas ele zombava de seus oráculos e de suas cerimônias, e as tirava deles, para atribuí-las a si mesmo. Assim, do mesmo modo que os comediantes mudam freqüentemente de perso¬nagem, para representar Hércules, ele tomava uma pele de leão e uma maçã, ador¬nada de ouro; ora cobria-se com um chapéu semelhante ao de Castor e de Pollux; ora, para imitar Baco, ele se revestia da pele de uma corça. Não se parecia, porém, com as mencionadas divindades, porque elas se contentavam com honras particula¬res que lhe eram prestadas, sem invejar as dos outros, e ele queria que lhe prestas¬sem todas juntamente para ter vantagem sobre elas. Entretanto, o que lhe atraía a multidão de tantos espectadores não era que ele tivesse três corpos como Geriom; era porque ele se transformava em tantas figuras diferentes, como Proteu em Homero, mudava-se em vários elementos, em diversos animais e em diversas plantas. Mas, Caio! Não é essa vã semelhança com os semideuses que deveis procurar imitar, mas deveis esforçar-vos para imitar suas ações e suas virtudes. Hércules, com seus grandiosos feitos, purgava as terras e o mar dos monstros que perturbavam o sossego dos homens. Baco, que foi o primeiro que plantou a vinha, dela tirou um líquido tão agradável e tão útil ao corpo e ao espírito, que os faz esquecer suas penas, os alegra e os fortalece e dele se notam os efeitos nas danças e nos banquetes, não somente das nações civilizadas, mas até mesmo entre os bárbaros. Quanto a Castor e a Pollux, dois filhos de Júpiter, não se diz que um deles, tendo nascido imortal e o outro mortal, o que tinha tão grande vantagem sobre o irmão, não podendo suportar a dor de ver morrer uma pessoa que lhe era tão querida, quis igualá-lo e igualar-se a ele, comunicando-lhe uma parte de sua imortalidade e tornando-lhe ele também sujeito à morte? Esta é a maior ação de justiça que se possa imaginar. Esses heróis que foram a admiração de seu século, e são ainda a do nosso, só receberam honra como deuses, por causa dos benefícios que fizeram aos homens. Mas, Caio! Que fizestes de seme¬lhante que vos possa dar motivo de tanto vos glorificardes? Começando, pelo que se refere a Castor e Pollux, imitastes essa perfeita amizade fraterna, que os torna tão recomendáveis? Vós, que, sem compaixão da juventude daquele que devia ocupar o lugar de vosso irmão e com quem a justiça vos obrigava a dividir o império, tão cruel¬mente manchastes vossas mãos em seu sangue e mandastes suas irmãs a um longín¬quo exílio, para reinar com mais segurança ainda? Imitastes a Baco, espalhando como ele a alegria por toda a terra, com uma admirável invenção? Vós, que só podeis ser considerado como uma peste pública, só encontrais novas invenções para mudar a alegria em dor e tornar a vida odiosa, quando, em recompensa de bens infinitos que tendes recebido de todos os lugares do mundo, vossa insaciável avareza e ambição oprimem os povos sob o peso de tantos e novos tributos e os obrigam a detestar vossa horrível desumanidade. Imitais também seus feitos heróicos e as realizações esplêndi¬das de Hércules, para restaurar a paz, fazer reinar a justiça, e restabelecer a abundância sobre a terra e sobre o mar? Vós, que, sendo, ao contrário, tão covarde e o mais tímido de todos os homens, banis de todas as cidades a ordem, a tranqüilidade e a felicidade, para introduzir em seu lugar a desordem, a perturbação e todas as outras misérias? É com essas ações que julgais poder passar por um semideus e desejais ser imortal, a fim de continuar a praticá-las indefinidamente? Não há, ao invés, motivo de se crer que, quando mesmo fósseis deus, um proceder tão detestável vos incluiria nas fileiras dos homens, pois que, se a virtude os toma imortais, os vícios os tornam mortais? Deixai, pois, de vos comparardes a Castor e a Pollux, tão célebres por sua amizade fraterna, depois que não tivestes temor de ser o assassino de vosso pró-prio irmão e não pretendais ser honrado como Hércules ou Baco que se distin-guiram por seus benefícios, quando vossas maldades e crimes tornam inúteis qualquer benemerência. CAPÍTULO 7 A LOUCURA DE CAIO AUMENTA SEMPRE MAIS E ELE QUER SER HONRADO COMO UM DEUS; IMITA MERCÚRIO, APOLO E MARTE. Mas a loucura de Caio não se deteve. Era pouco para ele igualar-se aos semideuses; ele queria mesmo igualar-se aos deuses. Começou por querer passar por Mercúrio. Vestiu-se com roupas parecidas com as dele, tomou nas mãos um caduceu e calçou botinas com asas. Outra vez, para se parecer com Apoio, co¬roou a cabeça com uma auréola resplandecente, pôs uma aljava às costas, e com flechas na mão esquerda, fazia gestos com a direita, para mostrar que os favores são preferíveis aos trabalhos. Instituiu depois danças sagradas nas quais se cantavam hinos em louvor desse novo deus, que se contentava antes, quando representava Baco, de ser chamado Evio Lieu e Liber. Muitas vezes, também, quando queria passar por Marte, tomava um capacete, uma couraça, um escudo e se apresentava com uma espada desembainhada na mão, acompanhado de homens dispostos a matar, para acom¬panhar o furor daquela divindade, que só respira sangue e crueldade. Espetáculo tão estranho impressionava vivamente o espírito do povo, que se não podia assaz admirar de que ele quisesse parecer com os deuses, aos quais não pos¬suía nenhuma virtude, nem boa qualidade e ousasse usar os sinais dos bens que eles tinham proporcionado aos homens. Pois, que representam aqueles sapatos alados de Mercúrio, senão que ele possui a dignidade de embaixador dos deuses, intérprete de suas vontades, o que seu nome em grego significa, sendo portador de boas notícias e levando-as com toda a solicitude, pois que, não somente um deus, mas um homem sensato não se pode resolver a levar más notícias? O caduceu não indica também que ele é medianeiro da paz e dos tratados, pois os homens também os usam para os mesmos fins e de outro modo jamais veríamos terminarem os males que causam a guerra? Caio, pondo assaz os seus calçados, o fazia para espalhar mais ainda em todas as províncias do império a fama de seus crimes, que deveriam, ao invés, serem sepultados num esquecimento perpétuo? Por que dar-se tanto traba¬lho, pois que, sem se afastar de seu lugar, ele cometia crimes infinitos, que jorrando sem cessar daquela detestável fonte, inundavam toda a terra? Tinha ele necessidade de um caduceu, pois que jamais se via algo em suas palavras e em suas ações que tivesse a menor aparência de paz, mas, ao contrário, não havia nem cidades nem províncias, gregas ou bárbaras, às quais ele não causasse divisão e perturbação. Que esse falso Mercúrio deixe então tal nome, que lhe é tão pouco conveniente. Com relação a Apoio, em que se lhe pode ele assemelhar? Será por aquela coroa resplandecente de raios, como se o sol e a lua fossem mais próprios para se cometerem crimes, do que as noites mais horríveis e as trevas? Somente as ações louváveis e virtuosas o dia deve aclarar: as vergonhosas e as infames devem pro¬curar a escuridão para se ocultarem, no mais profundo dos antros e das cavernas. Esse fabuloso Apoio também subverteu a ordem da medicina, pois, quando o verdadeiro Apoio tinha inventado remédios salutares para curar as doenças, este só empregava venenos próprios para dar a morte. Sua insaciável ambição anima¬va-o principalmente contra as pessoas da mais alta nobreza e as mais ricas da Itália, porque ali havia mais ouro e prata que em todo o resto do mundo, e se Deus o não tivesse libertado desse inimigo do gênero humano, não teria havido lugar no império que ele não tivesse também saqueado, destruído e arruinado. Louva-se assim a Apoio, por ter ele não somente se distinguido na ciência da medicina, mas predito o futuro para o bem dos homens, que ele impedia, por seus oráculos, de cair nas desgraças de que estavam ameaçados. Mas os oráculos que Caio proferia só se referiam às pessoas de condição e às mais ilustres, predi¬zendo confiscações, o exílio e a morte, que eram únicos favores que se poderiam esperar de sua injustiça, de sua crueldade e de sua tirania. Que semelhança tinham então esses dois Apoios? Que vergonha ver que se cantavam igualmente hinos em louvor de um e do outro, com se fosse um crime menor dar a um homem vicioso as honras que só se devem a um deus, como falsificar a moeda que traz a imagem do príncipe? Nada, porém, é mais surpreendente do que se ver que um homem, cujo espírito e corpo eram tão efeminados, quisesse atribuir-se a força e a coragem de Marte e enganar os espectadores, mudando a todo momento de personagem, como os atores no teatro. Pois, em que se poderia ele assemelhar, não digo a esse Marte fabuloso, que é apenas um fantasma, mas ao que ele quis representar, supondo que há um, isto é, uma força generosa e benéfica sempre pronta a socorrer os oprimidos como a palavra grega Aris, significa, a uma força que por guerras justas produz uma paz feliz. Esse Marte fabuloso tem dois nomes, um dos quais significa que ele ama a paz e que restaura a tranqüilidade pública, e o outro, que ama a guerra e que não poderia deixar de ser acompanhado de confusão e de perturbação. CAPÍTULO 8 CAIO SE ENFURECE CONTRA OS JUDEUS, PORQUE ELES NÃO QUERIAM, BEM COMO OS OUTROS POVOS, REVERENCIÁ-LO COMO DEUS. Penso ter demonstrado claramente como Caio não tinha relação alguma com os semideuses e menos ainda com os deuses. Jamais um príncipe teve mais mesquinhas e vergonhosas inclinações; ele aceitava cegamente e com ardor desmesurado tudo o que lhe vinha à mente; sua ambição tocava as raias da loucura, sua obstinação era invencível e seus desejos desregrados não tinham limites, nos abusos que ele fazia do poder. Os judeus, outrora tão felizes, vieram também a sentir-lhe os deploráveis efei¬tos, porque ele os considerava como os únicos capazes de se oporem aos seus desígni¬os, porque desde a infância aprenderam de seus antepassados, por uma constante tradição e ainda mais por suas santas leis, que existe um só Deus, criador do céu e da terra. Todos os outros povos, embora gemendo sob o peso do domínio tirânico desse cruel príncipe, não deixaram, por adulação, de se submeter ao seu desejo e de aumen-tar assim a sua presunção e sua vaidade. Vários romanos mesmo não tinham vergonha de desonrar a liberdade romana, introduzindo na Itália uma complacência e uma submissão de bárbaros, pela adoração que lhe prestavam. Mas ele sabia que, ao con¬trário, os judeus, antes de permitir que se tocassem por pouco que fosse nas suas leis, prefeririam correr para a morte como para a imortalidade, porque do mesmo modo que não se pode tirar uma pedra de um edifício sem que pouco a pouco o resto venha a cair, assim também, que tudo é importante, no que se refere à religião, e não poderia haver empreendimento mais ousado e mais ímpio, do que pretender trocar um ho¬mem mortal num deus imortal, pois que é mais fácil que Deus seja mudado em ho¬mem do que um homem em Deus; além de que seria abrir a porta a uma horrível infidelidade e a uma espantosa ingratidão para com Deus, Todo-poderoso, cuja bon¬dade infinita espalha continuamente graças e favores sobre todas as criaturas. Esta foi a causa da cruel guerra feita à nossa nação. Que maior desgraça pode suceder aos servidores, do que terem seu senhor como inimigo? Ora, os súditos dos imperadores são seus servidores e quanto à moderação dos príncipes que tinham precedido Caio tornava sua obediência justa e doce, tanto a sua era insuportável. A clemência era para ele uma virtude desconhecida e ele se gloriava de calcar aos pés todas as leis e de aboli-las como inúteis, para fazer reinar em seu lugar a violência e a tirania. Mas seu furor tinha principalmente por objeto os judeus. Ele não se conten¬tava de tratá-los como servos, mas os tratava como escravos e como os mais vis e mais abjetos de todos os escravos. Assim, podia-se dizer, com verdade, que eles tinham nele em vez de um senhor, um cruel e impiedoso tirano. CAPÍTULO 9 OS ANTIGOS HABITANTES DE ALEXANDRIA SERVEM-SE DA OPORTUNIDADE DO FUROR DE CAIO CONTRA OS JUDEUS PARA LHES FAZER TODOS OS ULTRAJES, TODAS AS INSOLÊNCIAS E TODAS AS AÇÕES DE CRUELDADE IMAGINÁVEIS. DESTRÓEM A MAIOR PARTE DOS SEUS ORATÓRIOS E LÁ COLOCAM AS ESTÁTUAS DO PRÍNCIPE, EMBORA JAMAIS SE TIVESSE FEITO ALGO DE SEMELHANTE SOB AUGUSTO NEM SOB TIBÉRIO. LOUVOR E ELOGIO DE AUGUSTO. Quando o ódio desse imperador contra os judeus chegou ao conhecimento dos habitantes de Alexandria, que já há muitos anos também os odiavam, eles julgaram não poder encontrar uma ocasião mais favorável de fazê-los explodir. Assim, como se tivessem recebido ordem desse príncipe, ou como tendo sido atacados pelos judeus, o direito da guerra os expunha à sua cólera, assaltaram-lhes as casas, delas os expulsaram com suas famílias, saquearam-nas, levaram tudo o que havia de melhor, não de noite, como os ladrões, que temem o casti¬go, mas em pleno dia, fazendo alarde, como se aquilo lhes pertencesse, ou o tivessem comprado e alguns mesmo, por uma detestável sociedade em ações, tão criminosos, dividiam entre si o roubo nas praças públicas na presença daque¬les que eles tinham tão cruelmente despojado de seus bens e acrescentavam ainda a zombaria e as injúrias à violência que lhes tinham feito. Mas, que é ter reduzido à indigência pessoas antes ricas, tê-las feito sair de suas casas e se exporem como vagabundos às inclemências do tempo, em com-paração com o que aconteceu em seguida? Aqueles homens furiosos expulsaram os judeus com suas esposas e filhos de todos os pontos da cidade para encurralá-los como animais em um lugar tão apertado, que eles não podiam nem sequer levar alguma coisa consigo, e todos pensavam que logo eles viessem a morrer de fome ou infeccionados pelo ar, cuja pureza é tão necessária para a vida, pior causa do calor interno, que é como acrescentar fogo ao fogo e não dar aos pulmões, em vez de um ar suave e temperado, que refresca, um ar aquecido por uma tão grande quantidade de pessoas apertadas umas contra as outras. Em tal conjuntura, esses pobres infelizes para poder pelo menos respirar, retiravam-se uns para o deserto, outros para as proximidades do mar e outros para os sepulcros. Aqueles que ainda restavam nalgum lugar da cidade ou que vinham de fora, sem saber do que se estava passando, eram recebidos a pedradas ou a pauladas e os trata¬vam do mesmo modo que aqueles que já estavam encerrados naqueles lugares pe¬quenos demais para tão grande multidão. Esses cruéis perseguidores iam esperar nas margens do rio os negociantes judeus que vinham fazer transações em Alexandria, roubavam-lhes toda a mercadoria e os queimavam vivos, uns na fogueira, que acendi¬am com lenha tirada dos navios e outros no meio da cidade de maneira ainda mais cruel, porque esse fogo era feito com lenha muito úmida, produzia muito mais fumaça do que chamas. Arrastavam a outros com cordas pelas ruas e praças públicas e se enfureciam de tal modo contra eles, que sua morte não lhes satisfazia à raiva e eles ainda os pisavam, despedaçavam-lhes os corpos, de modo que nada restava para ser sepultado, quando mesmo se lhes tivesse querido prestar aquele serviço. Quando eles viram que o intendente da província, que teria podido acalmar num momento tão grande agitação, a autorizava fingindo ignorá-la, eles se tornaram ainda mais atrevidos e mais insolentes. Reuniram-se em grupos, foram em massa aos oratórios que existiam em grande número em várias partes da cidade, cortaram as árvores da vizinhança, destruíram completamente alguns desses oratórios, e incen¬diaram outros, cujo fogo destruiu também as casas das adjacências; esses incêndios destruíram os escudos e as estátuas douradas, com as inscrições com que os impera¬dores tinham honrado a virtude dos judeus e que deviam ser respeitadas. Nada, porém, era capaz de conter aqueles alucinados, porque em vez de temer um casti¬go, eles sabiam que a raiva de Caio contra os judeus era tão grande, que nada lhe era mais agradável do que vê-los tratados com tão espantosa crueldade. Para conquistar ainda mais as boas graças do soberano com novas adulações, e oprimir-nos ainda mais seguramente para subverter sem receio nossas leis, eles colocavam suas estátuas nos nossos oratórios, quando não os podiam destruir, porque o grande número de judeus lhes impedia; a que colocaram no principal desses oratórios estava colocada sobre um carro puxado por quatro cavalos de bronze. Nisso procederam com tanto ardor, que não tendo cavalos recém-fundi-dos, foram buscar nos lugares de exercício alguns, todo estropiados, que se dizia terem sido feitos outrora para a rainha Cleópatra, última desse nome. Isso deveria ter ofendido a Caio, em vez de contentá-lo, pois significava honras extraordinárias; mas quando mesmo esses cavalos tivessem sido feitos recentemente, o terem ser¬vido para honrar a uma mulher, os tornava indignos dele e se tivessem sido feitos para ele, eram demasiado imperfeitos para lhe serem agradáveis. Mas eles julga¬vam merecer muito dele, mudando esses oratórios em templos para aumentar o número dos que lhes eram dedicados, embora não o fizessem tanto pelo desejo de lhe prestar essa homenagem, como pelo extremo ódio contra nossa nação. Não é necessário melhor prova do que durante trezentos anos do reinado de dez de seus reis, eles não lhes consagraram estátuas naquelas capelas, embora os colocassem no número de seus deuses e lhes dessem o nome. Mas haverá motivo de admira¬ção de que, embora eles soubessem com certeza que eram apenas homens, eles os colocassem no número de seus deuses, pois adoravam cães, lobos, leões, crocodi¬los e vários outros animais, tanto terrestres como aquáticos e aves, e todo o Egito está cheio de Templos, de altares e de bosques consagrados à sua honra? Mas, como jamais houve maiores aduladores e eles consideram muito mais a fortuna que a pessoa dos príncipes, eles responderão que talvez o poder e a prosperidade dos imperadores romanos sobrepujam de muito a dos Ptolomeus, e portan¬to, era prestarem-se-lhes as maiores honras. Que resposta pode ser mais ridícula? Por que eles não prestaram honras semelhantes a Tibério, ao qual Caio é devedor do império, pois que esse príncipe reinou durante vinte e três anos com tanta prudência e felicidade, que manteve até à morte não somente as províncias gregas, mas as bárbaras, em profunda paz e as fez gozar de toda espécie de bens? Era talvez sua origem inferior à de Caio? Não a sobrepujava, talvez, tanto do lado paterno como do materno? Era-lhe ele inferior em erudição? Que outro foi no seu tempo mais hábil e mais eloqüente? Não tinha ele bastante idade e portanto bastante experiência? Que outro imperador terminou seus dias em tão venturosa velhice e não se viu com admiração que mesmo na sua juventude ele já tinha a capacidade que de ordinário se adquire depois de um grande número de anos? Entretanto, vós não julgastes que ele merecia que lhe prestásseis a mesma honra. Que direi também desse admirável príncipe que parece se ter elevado, pela grandeza de suas virtudes, acima da condição dos homens, que pela multidão de seus benefícios e a felicidade de seu reinado mereceu por primeiro o glorioso título de Augusto e sem tê-lo recebido de nenhum outro o transmitiu aos seus sucessores? As terras opunham-se aos mares e os mares, às terras: a Europa armada contra a Ásia, e a Ásia contra a Europa. Todos os grandes do império estavam divididos para ver quem seria o senhor e podemos dizer que a raça dos homens estava prestes a perecer por essa sangrenta e cruel guerra acesa ao mesmo tempo em todos os lugares do mundo, quando em tão horrível tem-pestade esse grande príncipe tomou nas mãos o leme, restituiu a calma toda a terra, estabeleceu a abundância por meio do comércio, amenizou os costumes das nações mais bárbaras, que podiam passar por livres, conservou a paz, fez reinar a justiça e jamais deixou de espalhar a mãos-cheias favores sobre todos os povos, até o fim da vida. Esse incomparável benfeitor viu durante quarenta e três anos o Egito sujeito ao seu império, sem que lhe tenhais prestado a mesma honra que a Caio, nem colocado sua estátua em nenhum dos oratórios dos judeus, embora nenhum outro príncipe merecesse mais do que ele ser reverenciado de maneira extraordinária, não somente porque ele é o autor da augusta família imperial, mas porque tendo reunido nele esse soberano po¬der, antes dividido e tendo dele usado com tanta moderação, ele cuidou da felicidade pública, nada havendo de mais verdadeiro do que estas palavras de um antigo: "O governo de vários é perigoso, por causa dos males que produz a diversidade de seus sentimentos". O exemplo dos outros povos a isso vos devia mesmo obrigar, pois que de todas as partes lhe foram prestadas honras divinas e em diversos lugares lhe foram consagrados Templos, tão grandiosos que não podemos encontrar outros semelhan¬tes em parte alguma, particularmente na nossa Alexandria, tanto antigos como mo¬dernos, que os igualem? Pois, que outro é comparável ao que traz por sua causa o nome de Sebaste, construído perto do porto e tão reverenciado por aqueles que nave¬gam? É tão espaçoso e tão elevado que pode ser visto de muito longe: está todo cheio de admiráveis estátuas e quadros, bem como de outros presentes enriquecidos de ouro e prata que lhe foram oferecidos; nada se pode ver de mais magnífico do que seus pórticos, seus vestíbulos, suas galerias, suas bibliotecas e nada de mais belo que seus bois sagrados. Nesse concurso geral de todos os povos haverá algum homem de bom senso que possa dizer que não se dava toda a honra devida a Augusto, sem colocar suas estátuas nos oratórios dos judeus? Não, sem dúvida; mas o que impediu que isso se fizesse foi que se sabia que aquele admirável príncipe via com não menor prazer que cada qual vivesse segundo as leis do seu país, ao que ele tinha cuidado em fazer observar as leis romanas, e que as honras que lhe prestavam aqueles cegos adoradores não eram por ele aprovadas, mas ele julgava que assim contribuíam para erguer ainda mais a grandeza e a majestade do império. Quem melhor pode manifes¬tar que ele não se deixou arrebatar, nem transportar pela vaidade, por aquelas reverên¬cias excessivas, que jamais quis tolerar que se lhe desse o nome de deus e de senhor? E não somente rejeitou aquela adulação, mas demonstrou reprovar o horror que nossa nação tinha por coisas semelhantes? Do contrário, como teria ele permitido que ju¬deus, dos quais a maior parte tinha sido libertada pelos senhores, sob o poder dos quais a sorte das armas os havia reduzido, tivessem ocupado em Roma aquela grande parte da cidade que está além do Tibre? Ele não ignorava que tinham oratórios onde se reuniam para orar e principalmente no dia de sábado; que eles arrecadavam as déci¬mas para mandá-las a Jerusalém e faziam oferecer sacrifícios. Entretanto, não os expul¬sou de Roma e estava tão longe de lhes querer abolir a religião, suas leis e seus costu¬mes, que ele fez ricos presentes ao nosso Templo e ordenou que lá se imolassem todos os dias em holocausto, vítimas ao Deus Todo-poderoso: o que se faz ainda hoje, sempre se há de observar e será para sempre um sinal da virtude desse incomparável imperador. Ele quis também que os judeus fossem incluídos na distribuição pública de dinheiros e de trigo, que se fazia ao povo em certos meses; se caísse ela em dia de sábado, nos quais não lhes é permitido agir, nem receber alguma coisa, principalmente para sua utilidade, punham-lhes a porção de lado, para que a recebessem no dia seguinte. O que os torna¬va tão importantes entre as outras nações que ainda naturalmente elas não lhes fossem favoráveis, não ousavam perturbá-los na observância de suas leis. Tibério tratou-os do mesmo modo que Augusto, embora Sejam tudo fizesse para procurar perdê-lo por meio de calúnias, especialmente os que moravam em Roma, porque ele sabia que eles eram incapazes de entrar em sua detestável conjuração contra seu senhor; o soberano ordenou em seguida a todos os governadores das províncias que exceto alguns em número muito pequeno, que tinham entrado nes¬sa conjuração, tratassem bem a todos os outros, sem obrigá-los a alguma modifica¬ção em seus costumes, porque eles eram naturalmente inclinados à paz e nada faziam em suas leis nem em seus costumes de contrário à tranqüilidade pública. CAPÍTULO 10 CAIO, ESTANDO JÁ TÃO ENRAIVECIDO CONTRA OS JUDEUS DE ALEXANDRIA, ENCONTRA UM EGÍPCIO CHAMADO HELICOM, QUE TINHA SIDO ESCRAVO, E SE ENCONTRAVA ENTÃO EM INVEJÁVEL POSIÇÃO JUNTO DELE, E IRRITA-O POR MEIO DE CALÚNIAS. Caio chegou então ao máximo da vaidade e da loucura, dizendo não somente que ele era deus, mas acreditava-o e não encontrou povo algum, nem entre os gregos nem mesmo entre os bárbaros, mais próprios, que o de Alexandria, para satisfazer ao seu desejo, nessa idéia extravagante. Nenhum outro povo é mais falso do que esses habitantes, mais astutos, mais aduladores, nem tem tão pouco respeito pelo nome de Deus, pois não fazem dificuldade em dá-lo a íbis, às serpentes e aos outros animais. Assim, como eles são pródigos dessa honra, facilmente enganam aos outros que não sabem qual a impiedade dos egípcios, que lhes é impossível enganar os que a conhecem e a detestam. Caio, desconhecendo-lhes então a malícia, estava persuadido de que era de verdade e não por fingimento, que eles o julgavam um deus, porque o declaravam em voz alta e com todas as aclamações de que usam para demonstrar respeito para com os deuses; além de que considerava como pro¬vas de seu zelo os sacrilégios que eles tinham cometido naqueles oratórios e não havia poemas nem histórias que ele não lesse com tanto prazer, como as relações que lhe eram mandadas do que estava acontecendo sobre aquele assunto. Os seus domésticos que viviam preocupados em louvá-lo ou em censurá-lo em tudo o que lhes agradava ou desagradava, para isso ainda contribuíam; destes, a maior parte eram egípcios e infelizes escravos, educados desde a infância naquele erro abominavel, que os fazia adorar como deus serpentes e crocodilos. O chefe desse detestável grupo era um celerado de nome Helicom, que por maus meios se tinha introduzido no palácio. Tinha alguma noção das letras e aquele de quem antes tinha sido escravo e que lhas havia ensinado tinha-o dado a Tibério. Mas o príncipe não fizera grande caso dele, porque a maneira como tinha sido educado em sua juventude o tinha feito grave e severo, e o fazia desprezar as coisas pouco sérias. Quando depois de sua morte Caio sucedeu-o no império, aquele espírito perigoso, vendo que não havia voluptuosidade ou desregramento a que ele não se deixasse levar, disse consigo mesmo: "Eis um tempo, Helicom, que não te podia ser mais favorável; nada deixes então para procurar aproveitá-lo o mais possível. Tu tens um senhor tal como o poderias desejar. Ele te escuta; tu lhe agradas: tu tens o espírito flexível; és excelente na astúcia; os jogos, os gracejos e as ninharias, que lhe podem causar prazer são teu elemento. Tu és instruído nas ciências liberais e nas outras também. Não sabes so¬mente agradar por tuas adulações, mas também por palavras cuja malícia tanto mais perigosa quanto mais oculta suscita a suspeita e a cólera contra os que queres preju-dicar, quando teu senhor está com vontade de te ouvir, e o está quase sempre, tanto está disposto a dar ouvidos a maledicências e as calúnias. Não tens necessidade de pores em aflição para encontrar um motivo, para isso os judeus te fornecerão amplo material. Só tens que clamar contra suas leis e seus costumes, e é o que aprendeste deste sua meninice, não somente de alguns particulares, mas de quase todo o povo de Alexandria. Mostra então que sabes fazer". Helicom, cheio destes pensamentos, não abandonava Caio, nem de dia nem de noite, e nas horas mais particulares de seus divertimentos e prazeres não perdia ocasião alguma de irritá-lo contra os judeus por meio de imposturas, que faziam tanto mais efeito quanto eram ditas de maneira agradável e delicada. Ele não queria passar por inimigo, mas agia com astúcia e habilidade e fazia-lhes assim muito mais mal do que se se manifestasse abertamente e mostrasse seu ódio contra eles. Quando os embaixadores dos habitantes de Alexandria, que nos tinham sem¬pre declarado tão cruel guerra, souberam quanto esse infeliz homem lhes era útil, não somente lhe deram dinheiro, mas ainda prometeram-lhe grandes hon¬ras, logo que o imperador tivesse chegado a Alexandria, pois sabia-se que ele devia chegar em breve! Tudo então ele lhes prometeu, tanto se alegrava com o pensamento do prazer que sentiria em receber honras na presença dos embaixa-dores, que não deixariam de vir de todas as partes do mundo para aquela sober-ba cidade prestar suas homenagens àquele príncipe. Como não sabíamos ainda que tínhamos na pessoa de Helicom um inimigo tão perigoso, só pensávamos em nos defender contra aqueles, dos quais não podíamos duvidar de que o fossem realmente. Mas, depois que o soubemos, usamos de todos os meios possíveis para procurar acalmá-lo e conquistá-lo. Nenhum outro nos causa¬va mais mal e não no-lo poderia fazer ainda mais, pois ele estava em todos os jogos, em todos os divertimentos, em todos os banquetes e em todas as licenciosidades de Caio; seu cargo de mordomo de quarto, que era um dos principais do palácio, dava-lhe azo de desconsiderar a todo momento e seu amo sentia grande prazer em escutá-lo. Ele deixou todas as outras preocupações para só pensar em nos fazer mal com suas calúnias, misturando-as com boas palavras, de maneira tão agradável sob o pretexto de divertir a Caio e aparentemente sem má intenção, mas na realidade para nos perder; tal impressão fizeram em seu espírito que jamais se pôde apagar. CAPÍTULO 11 OS JUDEUS DE ALEXANDRIA MANDAM A CAIO UMA EMBAIXADA PARA FALAR-LHE DE SEUS SOFRIMENTOS; FÍLON ERA O CHEFE DESSA EMBAIXADA. CAIO RECEBE-O DE MANEIRA QUE PARECIA MUITO FAVORÁVEL. MAS FÍLON JULGOU BEM QUE NÃO PODIA CONFIAR NELE. Depois de termos feito todo o possível para tornarmos Helicom favorável a nós, vendo que trabalhávamos inutilmente, porque ele era tão insolente e tão cheio de si que ninguém ousava aproximar-se dele, não sabendo além disso se ele tinha algum ódio pessoal e particular contra nós, que o levasse a irritar o imperador para nos perder, julgamos dever tomar outro caminho e resolvemos apresentar um pedido ao príncipe para informá-lo de nossos sofrimentos, o qual continha em resumo o que nós tínhamos escrito mais detalhadamente num memorial manda¬do pouco antes ao rei Agripa, quando ele viera a Alexandria, para ir à Síria tomar posse do reino que Caio lhe havia dado. Assim, partimos para Roma na persuasão de encontrar na pessoa do imperador um justo juiz, quando nele tínhamos o mais mortal dos inimigos. Ele nos recebeu no campo de Marte, ao sair dos jardins de sua mãe, com um rosto alegre e palavras afáveis; fez-nos sinal com a mão, de que nos seria favorável e nos mandou em seguida a Homus, introdutor dos embaixadores, para que tomasse conhecimento de nosso assunto. Assim, não havia um só dos que estavam presentes, nem mesmo dos de nossa nação, que conheciam bem as coisas, que não julgasse que nossa embaixada seria bem-sucedida, como podía¬mos desejar e todos se alegravam conosco. Mas minha idade e o conhecimento que eu tenho das coisas do mundo faziam-me mais capaz de julgar e o que alegra¬va aos outros era-me suspeito, porque eu raciocinava assim: "Como é possível que havendo aqui embaixadores de todas as partes da terra, nós somos os únicos aos quais o imperador mandou dizer que daria audiência? Não sabe ele que sendo judeus, nós ficaríamos assaz contentes se ele nos tratasse como os demais? Poderí¬amos pretender sem loucura, favores particulares, de um príncipe que não é da nossa nação, duvidar de que ele não tenha mais simpatia pelos de Alexandria do que por nós e não crermos que é somente para obsequiá-los que ele quer se apres¬sar em apressar o seu parecer? Praza a Deus que em vez de ser nesse assunto um justo juiz, ele não fosse o protetor deles e nosso inimigo!" CAPÍTULO 12 FÍLON E SEUS COLEGAS SABEM QUE CAIO TINHA ORDENADO A PETRÔNIO, GOVERNADOR DA SÍRIA, DE MANDAR COLOCAR SUA ESTÁTUA NO TEMPLO DE JERUSALÉM. Estando eu ocupado com estes pensamentos que não me davam descanso, nem de dia nem de noite, sobreveio uma outra desgraça que não teríamos podido prever e que não importava somente na ruína de uma parte de judeus, mas que de toda a nação, acabou por me deixar aniquilado. Nós tínhamos seguido o impera¬dor a Puteolo, onde viera divertir-se à beira-mar; ele passava o tempo em casas de recreio muito suntuosas e que aí existiam em grande número, em nada pensava, menos ainda em tomar conhecimento dos nossos interesses, que nos haviam obri¬gado a segui-lo e nem que esperávamos a todo momento o seu juízo. Um homem então chegou com o rosto perturbado, olhos esbugalhados, mal podendo respirar. Chamou alguns à parte e disse: "Não soubestes da terrível notícia?" Ele queria continuar, mas os soluços embargaram-lhe a voz e por mais que quisesse falar, não pôde fazê-lo. Pode-se julgar do nosso espanto e de nossa surpresa. Rogamos-lhe que nos revelasse a causa da sua aflição, pois não havia motivo para que ele tivesse vindo apenas para chorar diante de nós e se o assunto merecia tantas lágrimas, era bem justo que, estando tão acostumados a sofrer, como estávamos, misturásse¬mos as nossas com as suas. Ele então fez um novo esforço e disse entre suspiros que lhe entrecortavam as palavras: "Está decretada a ruína do nosso Templo. O imperador ordenou que se colocasse a sua estátua no santuário e que se escrevesse na coluna o nome de Júpiter". Tão espantosa notícia deixou-nos quase petrifica¬dos, pois nos foi a mesma quase imediatamente confirmada, por outros. Retiramo-nos e nos encerramos em nossos aposentos para chorarmos a ruína particular e geral de nossa nação; como a dor é eloqüente que não nos fez ela dizer? Assim, depois de nos termos exposto ao mais rigoroso inverno e aos perigos de tão difícil navegação, para procurar algum alívio aos nossos sofrimentos, encontramos em terra uma tempestade muito mais cruel do que a do mesmo mar, porque estas são naturais, e por conseguinte suportáveis, ao passo que aquela era causada por um homem que de homem só tinha a aparência, por um jovem monarca que só desejava perturbação e agitação, e que vendo seus desejos obstados por todas as forças do império, deixava-se levar sem impedimento algum a uma tirania desenfreada, o que era um mal tanto maior quanto não havia remédio! Quem teria a coragem de lhe dizer que ele não devia violar a santidade do mais augusto dos Templos? Poder-se-ia, sem perder a vida, opor-se por demonstrações à torrente de tão grande impiedade? Mor-ramos, então, dizíamos, pois que nada nos pode ser mais glorioso do que dar a vida pela defesa de nossas santas leis. Mas nossa morte não poderá produzir nenhum efeito bom e sendo embaixadores como somos, não seria isso aumentar ainda a aflição dos que nos mandaram e dar motivo às pessoas de nossa nação, que nos apreciam, de dizer que para nos livrarmos dos males presentes, em tais perigos, faltamos à repúbli¬ca, embora os menores interesses devam ceder aos maiores e os particulares, aos públicos, porque, na perturbação de um Estado, todas as leis que lhe tinham conserva¬do a grandeza e a existência perecem com ele? Não poderiam também imputar-nos como crime abandonarmos os direitos dos judeus de Alexandria e deixarmos um as¬sunto, no qual se trata da ruína de toda nação, pelo motivo que dá, de temer que um príncipe tão violento e tão cruel não a queira destruir completamente? E se alguém disser que se se tomar um destes dois partidos, não se poderia daí tirar alguma vanta¬gem, podemos pensar em nos retirarmos em segurança: eu respondo que, para fazer tal proposta, é preciso ou não ter ânimo ou ignorar nossas divinas leis. Os que são verdadeiramente generosos jamais perdem a esperança e nossos livros santos nos ensinam a conservá-la sempre. Deus quer talvez servir-se dessa oportunidade para provar a nossa virtude e ver se estamos dispostos a suportar com paciência as nossas amarguras. Assim, em vez de procurar nossa salvação no auxílio incerto dos homens, ponhamos toda nossa confiança em Deus, com firme certeza de que Ele nos ajudará como outrora nos ajudou e a nossos antepassados, em tantos perigos que pareciam fatais. Foi assim que nós procuramos nos consolar em um tão grande mal, tão impre¬visto, e nos iludíamos com a esperança de tempos mais felizes. Depois de ter ficado em silêncio um instante, dissemos àquele que nos tinha trazido a notícia: "Por que vos contentais de, por uma palavra ter lançado a perturbação em nosso espírito, como uma fagulha que causa um grande incên-dio e não nos dizeis o que levou o imperador a tomar tão estranha resolução?" "Ninguém desconhece," respondeu-nos, "que ele quer ser adorado como Deus; como está persuadido de que os judeus são os únicos que se recusam a reconhecê-lo como tal, julga não poder castigá-los e afligi-los mais do que desonrando a majestade do seu Templo e profanando-lhe a santidade, que ele sabe ser o mais belo do mundo e rico de inúmeros presentes, que lhe foram feitos no decorrer de tantos séculos, além de que sendo empreendedor e ousado como é, quer ainda dele se apoderar. Capitom, encarregado da arrecadação dos tributos da judéia, o irritou ainda mais contra nós por cartas que lhe escreveu. Como ele não tinha bens até então, quando foi enviado a essa província, ele se enriqueceu pelas arrecada¬ções que fez, e quis prevenir por meio de calúnias as justas queixas que temia que os judeus fizessem dele, e serviu-se da oportunidade de que vou falar. "Jâmnia é uma das cidades da judéia das mais povoadas e todos os seus habitan¬tes são judeus, com exceção de alguns estrangeiros que aí vieram, para nossa des¬graça, morar, das províncias vizinhas. Sua aversão por nossos costumes e leis é tão grande que procuram fazer-nos todo o mal possível e, tendo sabido que Caio arde na louca paixão de ser honrado como um deus e que ele concebeu para esse fim um ódio mortal contra nós, eles julgaram não poder encontrar um tempo mais propício para nos perder. Assim, elevaram-lhe um altar de tijolo, com esse único fim, porque eles sabem que jamais permitimos que se violem desse modo as leis de nossos pais; sua malícia produziu o efeito desejado. Os judeus destruíram esse altar e imediata¬mente aqueles rebeldes foram queixar-se a Capitom, o autor da cilada, que tinham armado aos seus concidadãos para lhes causar a ruína. Aquele malvado, contente por ter conseguido o seu intento, não deixou de escrever a Caio e de exagerar naquela ação, acrescentando muito à verdade, a fim de irritar ainda mais o impera¬dor. O príncipe presunçoso e violento apenas recebeu essa comunicação, e determi¬nou que em vez de um altar de tijolo se erigisse a sua estátua de tamanho descomu-nal toda dourada e a colocassem no Templo de Jerusalém. Nisso teve como conse¬lheiros dois grandes e eminentes personagens. Helicom, ilustre comediante e cínico por excelência, e Apeles, famoso artista, que depois de ter, ao que se diz, vendido sua beleza na juventude, subiu ao palco, quando estava mais avançado em anos e sabemos qual o pudor dos que abraçam essa profissão. Por essas excelentes qualida¬des, esses dois homens chegaram a ser conselheiros de Caio. Ele seguia a um quanto à maneira de bem se divertir, e ao outro, na maneira de bem recitar seus versos, sem se importar de manter a paz no império e a tranqüilidade pública. Helicom, sendo egípcio, fere-nos com uma língua viperiana; Apeles, sendo ascalonita, é também nosso inimigo capital, e vomita contra nós todo o seu veneno". Cada uma das palavras daquele que nos fez esta relação era como uma pu-nhalada, que nos penetrava no coração, mas esses dois detestáveis conselheiros receberam bem depressa o castigo que merecia a sua impiedade. Caio mandou prender Apeles com ferros nos pés, por outros crimes, e torturá-lo na roda, de vez em quando, para aumentar e prolongar o seu suplício. Cláudio, tendo suce¬dido a Caio no trono, também mandou matar a Helicom, por outras razões. CAPÍTULO 13 EXTREMA AFLIÇÃO EM QUE PETRÔNIO SE ENCONTRA COM RELAÇÃO À ORDEM QUE CAIO LHE DERA, DE PÔR SUA ESTÁTUA NO TEMPLO DE JERUSALÉM, PORQUE ELE LHE CONHECIA A INJUSTIÇA E VIA-LHE AS CONSEQÜÊNCIAS. Caio escreveu, então, que se consagrasse e se pusesse sua estátua no nosso Templo, e tudo fez para que essa ordem fosse cumprida. Ordenou a Petrônio, governador da Síria, que tomasse a metade do exército que se localizava ao longo do Eufrates, para se opor às tentativas dos reis e dos povos do Oriente, a fim de acompanhar aquela estátua, não para lhe tornar a consagração mais sole¬ne, mas para dizimar os judeus que tivessem a ousadia de se opor aos seus inten-tos. É então, assim, cruel príncipe, que prevendo que esse povo se exporia à morte, antes que permitir a violação de suas leis e a profanação de seu Templo, vós lhe declarais guerra e mandais um exército inteiro para consagrar vossa está¬tua com o sangue de tantas vítimas inocentes, sem poupar as mulheres não menos que os homens? Essa ordem pôs Petrônio em grande aflição, porque de um lado ele sabia que Caio não toleraria que se provocasse o menor atraso na execução de suas ordens, e de outro, ele via-lhe a execução assaz difícil, porque os judeus sofreriam mil mortes, antes que a subversão de sua religião. Ainda que todos os outros povos tenham amor por suas leis, não são como os judeus. Eles consideram as suas como oráculos que o mes¬mo Deus lhes outorgasse; aprenderam-nas desde a infância, trazem-nas gravadas no coração e não se cansam de admirá-las e recebem no número de seus cidadãos os estrangeiros que as abraçam, consideram inimigos os que as desprezam e têm tal horror por tudo o que lhes é contrário, que não há nem grandeza, nem fortuna, nem felicidade temporal, que seja capaz de os levar a violá-las. Não precisamos também de melhor prova de seu respeito e veneração pelo Templo, do que ser a morte inevitável para os que ousam entrar no santuário: em todos os outros lugares a entrada é livre, a todos os que são de sua própria nação, de qualquer província eles venham. Petrônio, passando e repassando estas coisas em sua mente, achava o encargo tão ousado que não se apressou em executá-la: e mais ele agitava esse assunto, mais se persuadia de que não se devia tocar no que se refere à religião, quer porque a justiça e a piedade obrigam a nada se modificar, quer por causa do perigo que havia, não da parte de Deus, mas da dos judeus, que se deixariam levar ao desespero e ele conside¬rava também a multidão do povo daquela nação que não está, como os outros, reuni¬do numa única província, mas tão espalhado em tão grande número, quase por todo o mundo, tanto nos continentes como nas ilhas, que pouco falta para que iguale o número dos habitantes do lugar. Isso dava motivo a temores de que se reunindo de todas as partes eles declarassem uma guerra, que não se poderia vencer, mesmo por¬que então eles já eram muito fortes na Judéia e não menos hábeis do que valentes, preparados para morrer empunhando as armas, com invencível coragem, antes que abandonar suas leis, tão justas e excelentes, por mais que seus inimigos queiram fazer passar por bárbaras. Esse sensato governador temia também os daquela nação que residem além do Eufrates, em Babilônia e nas outras províncias, porque ele sabia com certeza, vendo com seus próprios olhos, que eles mandavam todos os anos ao Tem¬plo, sob o nome de primícias, o dinheiro que diziam sagrado, sem temer o perigo das estradas por maiores que fossem, porque eram levados por um dever de piedade. Assim, ele temia com razão, que apenas soubessem da consagração da estátua, eles se poriam em campo e o rodeariam de todos os lados. Esses pensamentos detinham-no, mas outros comentários punham a agita-ção e a perturbação em seu espírito quando ele se recordava de que seu senhor era um jovem príncipe que só conhecia a justiça da sua vontade e não tolerava que o desconhecessem, por mais injustas que fossem as suas ordens e cujo orgu¬lho e presunção chegavam a tal excesso de loucura, que o faziam esquecer de que ele era homem, para passar por Deus; e assim ele não podia executar a ordem que lhe dera, sem correr risco de vida, com esta diferença, que a poderia salvar na guerra cujos eventos são duvidosos, ao passo que não podia não perdê-la, se se recusasse obedecer ao soberano. CAPÍTULO 14 PETRÔNIO MANDA TRABALHAR NA EXECUÇÃO DA ESTÁTUA, MAS LENTAMENTE; ESFORÇA-SE EM VÃO POR PERSUADIR OS PRINCIPAIS DOS JUDEUS A RECEBÊ-LA. TODOS ABANDONAM AS CIDADES E OS CAMPOS PARA IR PROCURÁ-LO E ROGAR-LHE QUE NÃO EXECUTASSE AQUELA ORDEM QUE LHES ERA MAIS INSUPORTÁVEL QUE A MESMA MORTE, MAS LHE PERMITISSE MANDAR EMBAIXADORES AO IMPERADOR. Os oficiais romanos que tinham mais relações com Petrônio nos assuntos da Síria inclinavam-se para a solução da guerra; conheciam o furor de Caio e não duvidavam de que se se recusassem a cumprir suas ordens, ele descarregaria imediatamente sobre eles toda a sua cólera, certo de que eles também tinham tido parte na desobediência. Mas aconteceu, por felicidade, que tiveram oportu¬nidade de deliberar, enquanto preparavam a estátua, porque ela não lhes seria mandada da Itália; creio que Deus o permitiu para salvar seu povo, como tam¬bém não havia ordem expedida, para tomar na Síria a mais bela das que lá se encontravam. Sem isso, a guerra já se teria iniciado, antes que se tivesse podido encontrar algum remédio para tão grave mal. Petrônio, depois de ter deliberado mandar fazer a estátua, mandou buscar os mais hábeis escultores da Fenícia, deu-lhes o material e escolheu Sidom como o lugar mais próprio parta o trabalho. Mandou em seguida os mais ilustres dos sa¬cerdotes dos judeus e de seus magistrados comunicar-lhes a vontade do impera¬dor, exortou-os a obedecer, para não serem feridos pelas desgraças que do contrá¬rio lhes seriam inevitáveis, pois as principais forças do exército da Síria estavam prontas para atacá-los e obrigá-los, se eles se recusassem a obedecer. Petrônio estava certo de poder persuadi-los e assim eles persuadiriam o resto do povo, mas enganou-se. Aquelas palavras impressionaram-nos profundamente e a princípio ficaram petrificados, mas depois desataram em lágrimas; arrancaram a barba e os cabelos, e disseram com uma voz intercalada de suspiros: "Vivemos então até esta hora para ver o que nenhum dos nossos antepassados jamais viu? Como podería¬mos ver, se perderemos os olhos com a vida, antes que sermos espectadores de tão horrível impiedade?" Essa notícia espalhou-se em Jerusalém e em toda a Judéia e todos deixaram imediatamente as cidades e os campos, como se agissem de comum acordo, para ir à Fenícia encontrar-se com Petrônio. Aquela inumerável multidão fez pen¬sar aos que não sabiam como a Judéia era populosa, que era um grande exército que vinha atacar Petrônio, e deram-lhe imediatamente aviso; mas suas armas eram apenas gemidos e gritos que faziam reboar o espaço com tão grande baru¬lho, o qual não cessou nem mesmo quando eles os retiveram, para se entregar aos rogos que o excesso da dor lhe trazia aos lábios. Estavam distribuídos em seis grupos, três de um lado, em que estavam os velhos, os moços e as crianças e três do outro, onde estavam as mulheres idosas, as senhoras e as virgens. Quando se aproximaram de Petrônio, que apareceu num lugar elevado, to-dos se lançaram por terra soluçando tanto, que nada podia ser mais comovente; embora ele lhes ordenasse que se levantassem e se aproximassem, com dificul-dade a isso se resolveram. Vieram por fim, com a cabeça coberta de cinzas, os olhos marejados de lágrimas, e as mãos às costas como condenados à morte: um dos Senadores falou em nome de todo o povo, a Petrônio, nestes termos: "Para eliminar todo pretexto, senhor, de nos acusarem de ter alguma má intenção, nós viemos sem armas, não somente, mas sem nem mesmo nos querermos servir de nossas mãos, que são armas, dadas pela natureza aos homens; nós nos apresentamos para que nos trateis como quiserdes. Deixamos nossas casas desertas, para trazer conosco nossas esposas e filhos, a fim de unirem suas preces às nossas e rogar ao imperador, por vosso intermédio, ou que nos conserve a todos, ou que nos faça morrer a todos. Amamos naturalmente a paz e a ela somos tanto mais inclinados, quanto nosso maior prazer é educar nossos filhos no trabalho e para isso ela nos dá a oportunidade. Quan¬do Caio subiu ao trono e nós soubemos por suas cartas a Vitélio, que então estava em Jerusalém, ao qual vós sucedestes, demonstramos-lhe nossa alegria e foi por nosso meio que essa notícia se espalhou em todas as outras cidades. Nosso Templo foi o primeiro onde por esse fim se ofereceram sacrifícios, para desejar ao nosso soberano um feliz reinado. Seria justo que ele fosse o único onde se aboliria a religião, que há tanto tempo ali é observada? Nós abandonamos nossas casas, nossos bens e tudo o que possuímos. A única coisa que pedimos é que nada se modifique no nosso Templo, mas que ele permaneça no mesmo estado em que nossos pais no-lo deixaram. Se nos recusardes esse favor, tirai-nos também, então, a vida; ser-nos-á muito mais suave perdê-la, do que vermos violar nossas santas leis. Sabemos que se preparam grandes forças para nos atacar, se nos opusermos a essa ordem, mas nós não somos tão impru-dentes em querer resistir ao nosso soberano. Sofreremos antes a morte do que conce¬ber tal idéia. Podem nos matar, fazer-nos em pedaços sem correr perigo, porque não nos defenderemos. Faremos nós mesmos o ofício de sacerdotes, imolando no Templo como vítimas, nossas esposas, nossos filhos, nossos irmãos; e depois de termos derra¬mado seu sangue inocente, derramaremos também o nosso, para misturá-lo com o deles, matando-nos com nossas próprias mãos; exalaremos nossos últimos suspiros rogando a Deus que não no-lo impute o crime, pois o fizemos somente para não faltar ao nosso dever para com o imperador e também à observância de nossas leis. Mas, antes de chegarmos a esse extremo, nós vos pedimos, senhor, que nos concedais um pouco de tempo para mandarmos uma embaixada ao imperador. Talvez obtenhamos dele que não nos perturbe, na honra que devemos a Deus e no exercício de nossa religião, e não nos reduza à condição pior do que a das outras nações, a que ele deixa liberdade de viver, segundo seus antigos costumes e confirme os decretos de Augusto e de Tibério, seus predecessores, que bem longe de censurar nosso proceder e de encontrar algo de prejudicial em nossos costumes, aprovaram-nos inteiramente. Tal¬vez nossas palavras e razões aplaquem sua cólera; a ira dos príncipes passa e sua von¬tade nem sempre é a mesma. Foi por meio de calúnias que atraíram a ira do imperador contra nós; permiti-nos, por favor, que nos justifiquemos, mostrando-lhe toda a verda¬de; e que haveria de mais rude do que condenar-nos sem nos ouvir antes? Se nada pudermos obter dele, quem lhe impedirá de fazer então o que ele agora pretende? Mas não nos tireis, senhor, pela recusa, essa permissão, a única esperança que nos resta e a tão grande multidão de pessoas que só vos pedem esse favor, por um senti¬mento de piedade, que é verdade, que nenhum outro interesse, pode ser tão grande como o que se refere à própria salvação". CAPÍTULO 15 PETRÔNIO, COMOVIDO PELAS RAZÕES DOS JUDEUS E JULGANDO QUE NÃO SE DEVIAM MESMO REDUZI-LOS AO DESESPERO, ESCREVEU A CAIO DE UMA MANEIRA QUE PROCURAVA GANHAR TEMPO. O CRUEL PRÍNCIPE ENFURECE-SE, MAS ELE DISSIMULOU SUA RAIVA ESCREVENDO EM RESPOSTA A PETRÔNIO. Essas palavras foram acompanhadas de tantas lágrimas e suspiros, que encheram de compaixão a todos os que as ouviram e particularmente Petrônio, que era natu¬ralmente afável e moderado. O pedido feito em nome de todo o povo parecia-lhe justo e jamais nada foi mais deplorável do que o estado em que o viam reduzido. Petrônio tratou do assunto com seus conselheiros e ficou satisfeito por ver que aque¬les que antes eram os mais rigorosos começavam a ceder, e que os outros não dissi¬mulavam sua comoção pela sorte e pela aflição daquele povo. Assim, embora ele não desconhecesse a crueldade de Caio e de como jamais ele perdoava, parecia agir levado pela piedade de nossa religião, quer porque sendo homem de letras já há muito a conhecia, quer porque depois a conhecera desde que assumira o cargo de governador da Ásia e na Síria, onde há um grande número de judeus, quer porque pelo seu natural se inclinasse a tudo o que é justo e razoável, ou quer ainda, porque Deus dá ordinariamente bons sentimentos aos homens de bem, para que deles se sirvam em próprio proveito e para o do público, como aconteceu nessa ocasião. A resolução foi então tomada, de fazer os escultores não se apressarem, mas ordenar-lhes que trabalhassem com calma, para tornar o próprio trabalho o mais perfeito possível, para que se lhe pudesse dar o nome de obra-prima e porque os trabalhos feitos às pressas duram pouco, ao passo que os que são demorados na execução, passam pelos mais apreciáveis de século em século. Petrônio não permitiu aos ju¬deus mandar legados ao imperador, porque ele julgava que lhes não seria vantajoso, nem deveriam depender do capricho do soberano, mas não lhes recusou o que pediam, porque via perigo numa e noutra coisas; escreveu, porém, a Caio, sem lhe falar do pedido que lhe tinham feito e se contentou em atirar a culpa do atraso da consagração daquela estátua sobre os operários que tinham necessidade de mais comodidade para fazê-la digna dele. julgou assim poder ganhar tempo, e talvez Caio se deixasse comover porque estava próxima a ceifa e havia motivo de se temer que os judeus, não fazendo caso da vida, depois da subversão de suas leis, queimas¬sem eles mesmos seus campos de trigo bem como todas as árvores, o que se devia tanto mais temer, quanto se dizia que Caio estava para vir a Alexandria. Não havia probabilidade alguma de que ele se quisesse expor aos perigos do mar com um grande séquito, e era muito mais verossímil que ele passaria por terra ao longo das costas da Síria e da Ásia, onde poderia embarcar e desembarcar quando quisesse e onde, no meio daqueles navios, havia duzentos barcos longos, próprios para lhe trazer os víveres e a forragem, que lhe eram necessários, para reunir em grande nuantidade. em todas as cidades da Síria e particularmente as marítimas, por causa da infinita multidão de povos de todas as condições que viriam procurá-lo, tanto da Itália como de todas as outras partes do mundo. Não se duvidava de que aquela carta seria agradável a Caio e de que ele louvaria mesmo aquele atraso, não em consideração aos judeus, mas para poder reunir mui¬tos viveres e assim ela foi escrita e mandada. Mas a cólera do cruel príncipe acendeu-se de tal modo ao lê-la, que seus olhos faiscavam de furor; e ele disse batendo as mãos: "Ora, Petrônio! Ainda não aprendestes a obedecer ao vosso imperador? Vos¬sos grandes feitos vos enchem de vaidade e parece que conheceis a Caio só de nome. Mas em breve o conhecereis por vossa própria experiência. Considerais então mais as leis dos judeus, que são meus inimigos mortais, do que as ordens do vosso soberano? Temeis seu grande número como se não tivésseis um exército valoroso em todo o Oriente temido mesmo ao rei dos partos, e vossa compaixão por esse povo é mais poderosa em vosso espírito que o desejo de me obedecer e de me agradar? Tomais como pretexto a necessidade de fazer a colheita para fornecer-me viveres, para a viagem que eu me preparo para fazer, como se eu não o pudesse obter das províncias vizinhas e elas não fossem capazes de me fornecer por sua abundância, ante a esterilidade da Judéia. Mas, por que esperar mais e empregar o tempo em palavras inúteis? Será pela morte desse atrevido que lhe deveremos mos¬trar a magnitude de sua falta e que minha cólera não se acalme e diminua, ainda que eu deixe de ameaçá-lo". O furioso soberano em seguida respondeu a Petrônio, mas como ele tinha medo dos governadores, que eram capazes de suscitar uma revolução e particularmente os que governavam províncias tão distantes e poderosas como aquela extensão de terras que está ao longo do Eufrates, e que tinha também grande tropas, como as da Síria, ele ocultou sua raiva no coração, louvou sua prudência e sua previdência e ordenou-lhe somente que não perdesse tempo para fazer consagrar aquela está¬tua, pois que a ceifa, podendo então ser feita, não havia mais motivo de se adiar. CAPÍTULO 16 O REIAGRIPA VEM A ROMA E, TENDO SABIDO DO PRÓPRIO CAIO QUE ELE QUERIA MANDAR COLOCAR SUA ESTÁTUA NO TEMPLO DE JERUSALÉM, DESMAIA. DEPOIS DE SE TER REFEITO DAQUELA FRAQUEZA E DO ESPANTO QUE SE LHE SEGUIU, ELE ESCREVE PARA O PRÍNCIPE. Pouco depois, o rei Agripa chegava sem de nada saber, nem da carta de Petrônio, nem da resposta de Caio e quando foi saudá-lo, não teve dificuldade em perceber pela maneira como o recebeu, que ele ardia de cólera em seu coração. Procurou recordar-se para ver se havia feito alguma coisa que lhe pudesse desagradar e nada encontrando, julgou, como era verdade, que não era contra ele, mas contra algum outro, que ele estava irritado. Entretanto, notando que aquela agitação lhe transparecia no rosto, quando olhava para ele, seu temor continuava e muitas vezes vinha-lhe à mente perguntar-lhe a causa, mas continha-se, de medo de atrair sobre ele por uma imprudente curiosidade, a cólera que o soberano podia ter contra outros. Como ninguém mais que Caio penetrava o pensamento dos homens, ele logo percebeu o temor de Agripa e disse-lhe: "Quero vos esclarecer o que desejais sa¬ber. Vós me conheceis muito bem para ignorar que eu não falo menos com os olhos do que com a língua. Os homens de bem de vossa nação são os únicos de todos os homens que não me querem reconhecer como deus e que parecem correr voluntariamente para sua ruína, pela recusa em obedecer à ordem que dei, de colocar no seu Templo a estátua de Júpiter. Eles se reuniram de todas as cidades e dos campos para vir a mim, aparentemente, como suplicantes, mas para de¬monstrar-me na realidade o desprezo que têm por minhas ordens". Ele queria continuar a falar, mas Agripa, tocado de uma dor violenta, retirou-se para cair, desmaiado, se não o tivessem amparado. Levaram-no ao seu apartamento e ele ficou por muito tempo sem conhecimento algum. O estado em que se encontrava o príncipe aumentou ainda mais a ira de Caio contra nossa nação. "Se Agripa", dizia ele, "que sempre tanto me amou e que me deve tantos benefícios, tem tão forte amor aos costumes de seu país, que não pôde suportar que a eles se desobedeçam, por pouco que seja, pois o que eu lhe disse pareceu custar-lhe a vida, que deverei esperar dos outros judeus, aos quais nenhuma consideração leva a renunciar, para inclinar-me, eu aos seus sentimentos?" Durante todo o resto do dia e uma parte do dia seguinte, Agripa caiu em tal delírio que não podia voltar a si. Por fim, à tardinha, ele ergueu um pouco a cabeça e abrindo os olhos, com grande dificuldade, lançou-os sobre os que estavam em redor dele, mas não os reconheceu. Recaiu depois em seu desmaio. Sua respiração, porém, era mais livre. Algum tempo depois ele despertou, dizendo: "Onde estou? E em casa do imperador? Ele está presente?" "Coragem, senhor", responderam-lhe, "estais em nossa casa, e o imperador não está aqui; dormistes demais; despertai agora, por favor, e fazei algum esforço para nos reconhecer. Somos aqui todos amigos, vossos domésticos, vossos libertos, que vós amais e vos amam mais que a pró¬pria vida". O soberano, então, voltou a si e percebeu em seus rostos a impressão que seu mal lhes tinha feito no coração. Os médicos mandaram sair a maior parte dos que estavam no quarto, para lhe dar algum remédio e alimento. Ele, então, disse: "Não penseis em me dar alimentos delicados. Basta-me na aflição em que estou, que me impeçais de morrer de fome. Eu não me poderia mesmo resolver a comer, se não me restasse alguma esperança de ajudar minha nação em tal e tão grande desgraça". Acompanhou estas palavras com lágrimas, tomou somente o que lhe era absolutamente necessário para manter a vida, e não quis mesmo permitir que lhe misturassem uma só gota de vinho na água que ele bebeu. "Deram ao meu corpo", disse depois, "o que ele precisava apenas para não morrer, que me resta agora, senão fazer todo o esforço possível junto do imperador, para procurar demovê-lo dessa grande tempestade?" Pediu então tabuinhas e escreveu esta carta ao príncipe. "O respeito e o temor impediram-me, senhor, de me apresentar diante de vós. O brilho de vossa majestade me deslumbra e vossas ameaças me assustam. Uma carta vos exprimirá melhor minha mui humilde oração, mais do que eu poderia fazer de viva voz. Sabeis, grande príncipe, que a natureza gravou no coração de todos os homens um ardente amor pela pátria e uma singular vene-ração pelas leis que eles receberam de seus antepassados, como vós bem manifestais por vossa afeição por uma e pelo cuidado que tomais em fazer obser-var as outras. Essa inclinação que nasce conosco é tão forte que não há povo ao qual suas leis não pareçam justas, embora não nos sejam de fato, porque delas se julga mais pelo respeito que se lhes tem do que pela razão. "Bem sabeis, senhor, que eu sou judeu, nascido em Jerusalém, onde está esse santo Templo, consagrado em honra do Deus Todo-poderoso. Eu tive por ante¬passados os reis desse país. Alguns deles foram soberanos sacerdotes e estima¬ram mais essa dignidade do que a própria coroa, porque estavam persuadidos que tanto quanto Deus está acima dos homens, tanto o sacerdócio está acima do trono; as funções de um têm por objeto as coisas divinas, ao passo que o poder que o outro dá só se refere às coisas humanas. "Como eu me encontro, senhor, ligado por tantos liames àquela nação, a essa pátria e a esse Templo, eu não poderia recusar ser-lhes medianeiro e intercessor junto de vós. Peço-vos, então, por minha nação, de não permitir que ela seja obrigada a sentir diminuir o seu zelo por vós. Nenhum outro povo em toda a Europa e toda a Ásia nunca demonstrou tanto por vossa augusta família imperial, em tudo o que sua religião e suas leis podem permitir. Ele não somente faz seus votos e sacrifícios para vossa prosperidade e a de vosso império, nas festas públi¬cas e solenes, mas fá-lo todos os dias, o que demonstra que não é com simples palavra e falsas aparências, mas de fato e do fundo do coração, que ele demons¬tra tão sincero afeto por seus imperadores. "Quando à cidade santa, onde vi a luz do dia, posso dizer que não somente ela deve ser considerada como a capital da Judéia, mas ela o é ainda de vários outros países, por causa das tantas colônias que ela povoou no Egito, na Fenícia, na Síria Superior e Inferior, na Panfília, na Cilícia, em várias outras partes da Ásia, até a Bitínia e mais além, no Ponto. Na Europa, a Tessália, a Beócia, a Macedônia, a Etólia, Atenas, Argos, Corinto, com a maior parte do Peloponeso e mesmo as ilhas Célebres, como a Eubéia, Chipre e Cândia. Que direi também dos países de além do Eufrates, onde exceto uma parte da província de Babilônia e de alguns governos, todas as cidades situadas em regiões férteis são habitadas por judeus? Assim, se o país de onde tenho minha origem encontrar graça diante de vós, vós não favoreceis, senhor, uma só cidade, vós beneficiareis um mui grande número de outras, espalhadas por todas as partes do mundo e é uma coisa digna da grandeza de vossa fortuna, participando do favor que ela vos dever, não haverá lugar em toda a terra onde não brilhe a vossa glória e onde não ressoem os louvores e as ações de graças que vos serão devidas. "Vós tendes, em favor de alguns de vossos amigos, concedido a cidades inteiras o direito de burguesia romana, e assim elevastes acima dos outros os que antes estavam submissos; nisso, não menos obsequiastes, do que àquelas cidades, àqueles, em con¬sideração aos quais concedestes esse favor. Posso dizer que entre todos os príncipes que vos têm por senhor e que honrais com vossa amizade, há poucos que me prece¬dem em dignidade e nenhum me sobrepuja, ou melhor, não me iguala em afeto, quer porque ela me é hereditária, quer por causa dos benefícios com que vos dignastes cumular-me. Eu não ousaria, entretanto, pedir por minha pátria o direito de burguesia romana, nem mesmo que a libertásseis da servidão e a dispensásseis dos tributos. Eu vos peço somente, senhor, uma graça, que embora não vos esteja a peito, não deixará de vos ser útil, pois que nada é mais vantajoso aos súditos do que um soberano favo¬rável. Jerusalém soube antes de todos os outros da vossa feliz sucessão ao trono do império e essa cidade santa fez imediatamente sabê-lo a todas as outras províncias vizinhas, comunicando-lhes tão grata notícia. Assim como ela foi a primeira de todo o Oriente que vos saudou como imperador, não pode ela esperar com justiça uma graça particular ou pelo menos não estar em piores condições que as outras? "Depois de vos ter falado, senhor, por minha nação e por minha pátria, resta-me fazer-vos um humilde pedido por nosso Templo. Como ele está consagrado em honra de Deus e sua majestade ali habita, lá jamais se colocou estátua ou figura alguma, porque os pintores e os escultores só podem representar divindades visíveis, e o Deus que adoramos é invisível; nossos antepassados julgaram que não se podia, sem impiedade, procurar representá-lo. Agripa, vosso avô, visitou esse Templo, com respeito. Augusto ordenou por cartas expressas que de todas as partes para lá se levariam as primícias e que não se passaria um só dia sem que ali se oferecessem sacrifícios. A imperatriz, vossa bisavó, teve-o também em grande veneração. Jamais houve grego, bárbaro ou príncipe, por mais ódio que tivessem contra nós, nem sedição, nem guerra, nem cativeiro, nem alguma outra das maiores desgraças e das maiores desolações que possam acontecer aos homens, que nos fizesse colocar algu¬ma estátua no nosso Templo, porque, mesmo os nossos maiores inimigos reverenci-aram esse lugar consagrado ao Criador do universo, pelo temor dos espantosos castigos que sabiam ter recaído sobre os que tinham ousado violá-lo. A esse respeito, sem citar exemplos estrangeiros, eu tratei, senhor, outros que vos são sabidos. "Quando Marco Agripa, vosso avô, quis, para homenagear o rei Herodes, meu avô, ir à Judéia e passar do mar a Jerusalém, ficou tão comovido com a magnificência do Templo, com seus ornamentos, com as diversas funções dos sacerdotes, suas vestes e principalmente as do supremo sacerdotes, resplande-cente de majestade, com a ordem que se observa nos sacrifícios, com a piedade e com tudo o mais, bem como com o respeito com o que todos o assistem, que não pôde deixar de manifestar a sua admiração. Ele sentia tanto prazer em con-siderar estas coisas que não se passava um dia sequer, enquanto ele esteve em Jerusalém, que lá não voltasse para apreciá-lo. Ele ofereceu ricos presentes a esse Templo e concedeu aos habitantes daquela grande cidade tudo o que poderiam desejar, exceto a isenção dos tributos. Herodes, depois de lhe ter prestado todas as honras possíveis e de ter igualmente dele recebido outras tantas, acompa¬nhou-o ao seu embarque e o povo vinha também de todas as partes, atirar ra¬mos de árvores e flores à sua passagem abençoando-o, muitas vezes. "Não é também, senhor, coisa sabida de todos, que o imperador Tibério, vosso grande tio, durante os vinte e três anos de seu reinado, teve a mesma estima pelo nosso Templo, sem permitir que lá se fizesse a menor modificação na ordem que se observa? Quanto a isso, embora tanto ele me tenha feito sofrer, eu não poderia deixar de referir um fato que lhe mereceu grandes elogios e eu sei que sentis prazer em saber da verdade. Pilatos, então governador da Judéia, consagrou-lhe, no palácio de Herodes em Jerusalém, uns escudos dourados, não tanto pelo desejo de honrá-lo, como por seu ódio contra nossa nação. Não havia figuras nesses escudos, nem inscrição alguma, a não ser o nome daquele que o consagrava e o daquele ao qual era consagrado. Entretanto, o povo revoltou-se de tal modo, que enviou os quatro filhos do rei, os outros príncipes da casa real e os mais ilustres de sua nação, para rogar a Pilatos que mandasse retirar os escudos, porque era uma desobediência às leis e aos costumes de seus antepassados, nos quais seus reis e imperadores jamais tinham querido tocar. Vendo que Pilatos, que era de natural violento e teimoso, recusava-o grosseiramente, disseram-lhe: 'Deixai de perturbar a paz de que gozamos. Deixai de nos querer levar à revolta e à guerra. Não é pelo desprezo das leis que se honra o imperador. Vós tendes necessidade de um outro pretexto para disfarçar um empreendimento tão injusto e que nos é intolerável, pois esse grande príncipe está muito longe de querer que se desobedeça às nossas leis e costumes. Se tendes alguma determinação, alguma carta e alguma outra ordem dele, que vos autorize a fazê-lo, mostrai-no-lo, e mandaremos embaixadores a ele, para apresentarem humildemente nossas razões'. Estas palavras irritaram ainda mais a Pilatos e ao mesmo tempo causaram-lhe grande aflição porque ele temia, se se mandassem embaixadores, que eles informassem o imperador de suas concussões, de suas injustiças e de sua horrível crueldade, que fazia sofrer tantos ino¬centes e custava mesmo a vida a vários. Em tal agitação, esse homem tão duro e tão colérico não sabia que partido tomar. Não ousava retirar os escudos já consagrados e mesmo que o tivesse feito, não se podia decidir a causar um prazer e um favor ao povo; conhecia o espírito de Tibério. Os que intercediam pelos judeus julgando que, ainda que dissimulasse, ele se arrependeria do que tinha feito, escreveu a Tibério uma carta muito insistente e muito respeitosa; não há necessidade de outra prova da cólera que sentiu contra Pilatos, do que depois de lhe ter manifestado sua indignação pela resposta que lhe deu; no mesmo instante ele mandou retirar os escudos e levá-los ao Templo construído em Cesaréia, em honra de Augusto, o que se fez. Assim, prestou-se o devido respeito ao imperador e não se desobedeceu às nossas leis e aos nossos costumes. Não havia, entretanto, figura alguma naqueles escudos, e agora trata-se de uma estátua. Aqueles escudos só tinham sido colocados no palácio do governador: e quem colocar essa estátua no Templo, no mesmo santuário, lugar santo, no qual somente o soberano sumo sacerdote pode entrar e somente uma vez por ano, depois de um jejum solene, para queimar perfumes em honra de Deus, e pedir-lhe por preces humildes que faça feliz a todos, aquele ano. Se algum outro, não somente de nossa nação, homem qualquer, mas sacerdote, sem excetuar aquele que ocupa o mais alto cargo, depois do sumo sacerdote, ousa lá entrar ou se o sumo sacerdote, ele mesmo entrassem duas vezes no ano, ou três ou quatro, no dia em que lhe é permitido entrar, isso lhes custaria a vida e ninguém lhes poderia alcançar o perdão, tanto o nosso legislador expressamente ordenou que se reverenciasse aquele lugar santo e o tornas¬se inacessível. Não deveis portanto duvidar, senhor, de que, se para lá se levar uma estátua, não se encontrará um sacerdote que não se mate com suas próprias mãos, bem como a suas esposas e filhos, para não ver tal violação de nossas santas leis. "Foi assim que Tibério fez nessa ocasião. Quanto ao mais feliz de todos os imperadores que jamais subiu ao trono, o admirável príncipe, vosso predecessor, que depois de ter dado a paz a toda a terra mereceu pela virtude o glorioso nome de Augusto, quando ele soube que não se colocava em nosso Templo nenhuma figura visível para representar o Deus invisível, admirou essa prova de nossa pieda¬de e da de nossa nação, porque ele era muito instruído nas ciências e passava a maior parte do tempo, quando estava à mesa, falando do que tinha aprendido com os grandes filósofos e com a convivência de homens de letras que mantinha junto de si, a fim de dar ao seu espírito um alimento agradável, ao mesmo tempo que não podia recusar ao corpo o que lhe era necessário. Eu poderia trazer outras provas de sua boa vontade para com nossa nação, mas contentar-me-ei com estas duas. Tendo sabido que se descuidava do que se refere às nossas sagradas primícias, ele ordenou aos governadores das províncias da Ásia que permitissem somente aos judeus, de se reunirem, porque suas assembléias não eram bacanais, nas quais só se pensava em se embriagar ou reuniões com o fim de incitar revoltas e pertur¬bar a paz, mas verdadeiras sessões literárias, onde se aprendia a virtude, onde se aprendia a amar a justiça e a temperança e que aquelas primícias que se manda¬vam todos os anos a Jerusalém só eram empregadas nos sacrifícios a Deus no Templo. Assim, esse grande príncipe proibiu expressamente a quem quer que fos¬se, perturbar os judeus no que se referia às suas reuniões e primícias. Se não são estas precisamente as suas palavras, que eu acabo de referir, são pelo menos o sentido das mesmas, como podeis, senhor, constatar por uma de suas cartas de C. Norbano Flacco, que transcrevo em seguida: 'C. Norbano Flacco, aos magistrados de Efeso, saudação. O imperador escreveu-me que em qualquer parte do meu território, onde há judeus, que eu lhes permita reunirem-se segundo seu antigo costume e levar o dinheiro a Jerusalém. Comunico-vos este aviso e ordeno-vos que não ponhais a isso nenhuma dificuldade'. "A vontade de Augusto e seu afeto por nosso Templo não se revela claramen¬te aí, pois que ele permite aos judeus reunirem-se publicamente para recolher essas primícias e fazer outros atos de piedade? "Eis aqui uma outra prova que não é menos importante. Ele ordenou que se oferecesse do dele, cada dia em nosso Templo, um touro e dois cordeiros, para serem imolados em honra do Deus Todo-poderoso: o que se faz ainda agora, sem que se tenha jamais interrompido essa ordem. Ele não ignorava, entretanto, que não havia nem dentro nem fora do Templo algum simulacro. Mas como nenhum outro não o sobrepujava em saber, ele julgava bem, que devia ser um Templo singular e mais santo que qualquer outro, consagrado em honra do Deus invisível, onde não havia nenhuma outra figura e onde os homens podiam levar seus votos com confiança e esperança de serem ajudados por seu auxílio. "A imperatriz júlia,* vossa bisavó, imitando a piedade do grande príncipe, seu mari¬do, adornou esse Templo com um grande número de taças e outros vasos de ouro de grande valor, sem neles mandar gravar figura alguma, pois ainda que as mulheres dificil¬mente compreendam o que não é sensível, sua inteligência e sua aplicação às coisas grandes tinham-na de tal modo elevado nisso, como em todo o resto, acima do seu sexo, que ela diferenciava com menos luz as inteligíveis das sensíveis e estava muito persuadida de que estas últimas apenas podiam passar como sombra das primeiras. __________________________ * Deveria estar escrito Lívia. "Como tendes, então, senhor, tantos exemplos domésticos e uma grande afeição por nós, conservai por favor, o que esses gloriosos antepassados dos quais tendes a vida e cuja sucessão vos elevou ao cúmulo da grandeza tão cuidadosamente conserva¬ram. São imperadores que intercedem em favor de nossas leis, perante um imperador, príncipes augustos, perante um príncipe augusto, avós e bisavós perante seus netos e bisnetos, vários, perante um só, e que vos dizem: 'Não destruais o que nós estabelece¬mos e que sempre foi observado, mas considerai que ainda que a subversão dessa ordem não produza no momento nenhum mau resultado, a incerteza do futuro deve fazer temer aos mais ousados, se eles renunciaram a todo temor de Deus'. "Se eu quisesse narrar, senhor, todos os favores que vos devo, o dia haveria de terminar, antes que eu os tivesse enumerado: sinto ter que falar deles somente de passagem. Tão grandes benefícios são conhecidos por si mesmos. Quebrastes meus grilhões, mas esses ferros prendiam somente uma parte do meu corpo e a pena que sofro oprime minha alma. Livrastes-me do temor da morte, e depois, como ressuscita¬do, um temor ainda maior me pôs em tal estado que eu podia passar por morto. Conservai, senhor, essa vida, que eu recebi de vós e que não quiséreis, sem dúvida, ma ter dado, apenas para prolongar meus sofrimentos. Elevastes-me à maior das honras à qual os homens possam aspirar, dando-me um reino e a este reino acrescentastes a Traconítida e a Galiléia. Depois de favores tão extraordinários não me recuseis, rogo-vos, senhor, um, que me é tão necessário, que os outros, sem ele, ser-me-iam inúteis e depois de me ter elevado a uma condição tão excelsa, não me precipiteis nas trevas. Eu vos não suplico que me conserveis nessa alta fortuna, de que vos sou devedor; estou pronto a renunciar a toda glória que ela me dá. O único favor que vos peço é de não tocar nas leis de meu país e se me recusardes, que opinião teriam de mim, não somen¬te todos os judeus, mas todos os homens do mundo? Não teriam eles motivo de crer ou que eu traí minha pátria ou que perdi a honra de vossa amizade, que são dois dos maiores males que se possa imaginar? Entretanto, eu não poderia evitar cair ou num ou no outro, pois seria preciso que eu fosse um covarde e um pérfido para abandonar o interesse que me deve ser tão caro, ou que não tivesse mais parte nas vossas boas graças, se implorando vossa bondade para a conservação do meu país e do Templo que lhe é a glória principal, vos recusásseis de me tratar como os imperadores tratam sempre aos que honram com sua benevolência. Se eu for infeliz de não mais vos ser agradável, não vos peço nenhum outro favor, não de mandar-me prender, como o fez Tibério, mas de me mandar matar imediatamente. Poderia eu desejar viver depois de ter perdido vossa amizade na qual unicamente confio e ponho toda a minha esperança?" CAPÍTULO 17 CAIO, COMOVIDO COM A CARTA DE AGRIPA, ORDENA A PETRÔNIO QUE NADA MODIFIQUE NO TEMPLO DE JERUSALÉM. MAS LOGO SE ARREPENDE DE LHES TER CONCEDIDO TAL FAVOR E MANDA FAZER OUTRA ESTÁTUA EM ROMA PARA MANDÁ-LA SECRETAMENTE A JERUSALÉM, QUANDO FOSSE PARA ALEXANDRIA, ONDE QUERIA FAZER-SE RECONHECER COMO DEUS. INJUSTIÇA E CRUELDADE DESSE PRÍNCIPE. Depois que o rei Agripa mandou esta carta a Caio, ficou esperando a resposta, muito aflito e inquieto, julgando muito bem que não se tratava somente da conservação ou da ruína da Judéia, mas da de toda a nação dos judeus espalhada por toda a terra. A carta incitou no espírito de Caio diversos sentimentos. Ele não podia ver, sem se irritar, que se resistia à sua vontade e não podia deixar de se influenciar pelas razões e rogos de Agripa. Censurava seu afeto por um povo, o único que se ousava opor à consagração de suas estátuas, mas louvava a sinceridade daquele príncipe, procedente de uma alma nobre e generosa. Por fim, seu afeto por Agripa sobrepujou a cólera; ele acalmou-se e respondeu-lhe favoravelmente; concedeu-lhe como o maior de todos os favores: que não mais se fizesse aquela consagração. Ordenou também que se escreves¬se a Petrônio que nada modificasse no Templo de Jerusalém. Mas incluiu a esse favor condições tão severas que ele tinha sempre motivo de temer. Ele acrescentou estas palavras à carta: "Se fora de Jerusalém, outras cidades, sejam quais forem, quiserem erguer-me altares e estátuas e houver alguém, tão atrevido que se oponha a isso, quero que seja castigado no momento mesmo, ou que me seja mandado". Não era isso revo¬gar com tais palavras o favor que fazia ao mesmo tempo que o concedia, pois só podiam eles ser considerados como sementes de revolta e de guerra? Quem duvidaria de que os povos inimigos dos judeus não encheriam imediatamente todas as províncias desses sinais sacrílegos de uma honra que é devida somente a Deus, mais para prejudicar à nossa nação do que para causar prazer a Caio, e que os judeus, não podendo tolerar tal ultraje às suas leis, Caio, para castigá-los por sua obstinação não ordenaria novamente que se colocasse a estátua no Templo? Entretanto, por uma proteção visível de Deus, nenhum dos povos vizinhos da Judéia deu motivo a essa perturbação, por mais que houvesse motivo de ser ela temida. Mas, dirá alguém, que vantagem se teve disso, pois que, ainda que os outros ficassem em paz, Caio não ficava? Bem depressa ele se arrepen¬deu do favor que tinha concedido, voltou aos primeiros sentimentos e sem mais falar da estátua que se fazia em Sidom, a fim de não suscitar uma revolta, ordenou que se fizesse uma em Roma, de bronze dourado, para mandá-la secretamente por mar e fazê-la colocar sem rumor no Templo de Jerusalém, quando partisse para o Egito. Apressou-se em dar ordens aos preparativos para essa viagem, tanto ele desejava ver Alexandria, onde havia determinado ficar muito tempo, porque nenhum outro lugar não lhe parecia tão próprio para executar seu ridículo intento, de se fazer reconhecer como Deus, na esperança que tinha de que o exemplo daquela grande cidade, onde, por causa das vantagens que sua situação lhe dá, lá se vem de todos os lugares do mundo, para levar as outras cidades, menos importantes, a lhe prestar as mesmas honras divinas, que ele estava persuadido, aquela lhe prestaria; além disso, ele era de natural leviano e tão in¬constante, que jamais fazia algo de bom, de que logo não se arrependesse e não procu¬rasse meios para fazer pior do que antes. Eis aqui as provas: Tendo um dia dado liberdade a alguns prisioneiros, quase em seguida os mandou prender de novo, sem lhes dar mais esperanças de sair, embora nada eles tivessem feito de novo de que pudessem ser acusados. Outra vez mandou alguns cidadãos para o exílio, os quais não tinham come¬tido a menor falta e eles consideraram aquele castigo como um favor, porque conheciam sua horrível desumanidade, e estavam preparados para morrer. As¬sim, foram para as ilhas, onde trabalhavam no cultivo da terra e suportavam pacientemente sua desgraça. E sem que tivessem feito coisa alguma que o pu¬desse desagradar, mandou alguns soldados para matá-los e encheu assim de luto, em Roma, muitas nobres famílias. Se ele dava dinheiro a alguém, logo em seguida o exigia de volta, não como empréstimo, com a condição de pagar juros, mas como um roubo que lhe ti¬nham feito. Esses desgraçados não eram somente obrigados a entregá-lo, mas isso lhes custava também todos os seus bens, quer os tivessem somente como patrimônio, quer adquirido com trabalho. Os que se julgavam melhor junto dele eram arruinados com o pretexto de afeto; obrigava-os a tão excessivas despesas, em vãos divertimentos e banquetes, que, às vezes, uma só dessas festas, suntuosas e magníficas, era suficiente para arruiná-los completa¬mente, obrigando-os mesmo as pedir emprestado, o que não podiam restituir. Muitos então temiam seus favores, porque não somente eram inúteis, mas tão perigosos que podiam ser tidos como verdadeiras ciladas, de que se deveriam precaver. Tal era Caio, e como a ninguém mais ele odiava do que aos judeus, nenhum outro povo, mais que este, lhe veio a sentir os efeitos. Ele começou por Alexandria, tirando-lhe todos os oratórios e os encheu de estátuas, sem que ninguém se ousasse opor a tão grande violência. Só restava o Templo de Jerusalém, que até então tinha sido um asilo inviolável, e ele quis, para cúmulo de impiedade, arrebatá-lo a Deus para torná-lo para si, com este título: "O Templo do novo Júpiter, o ilustre Caio". Em que estais pensando, presunçoso e insensato príncipe? Sois apenas um homem e quereis usurpar o céu. Não vos contentais de reinar sobre tantos po-vos, que não há nação ou clima onde vosso império não se estenda? Mas não quereis que haja somente na terra um lugar particularmente consagrado a Deus; onde seja permitido prestar-lhe com piedade sincera as honras devidas à sua adorável majestade. São essas as grandes esperanças que todo o universo conce¬be de vosso reinado e ignorais que é, ao contrário, atrair sobre vós e sobre o império um dilúvio de todos os males possíveis e imagináveis? CAPÍTULO 18 COM QUE FUROR CAIO TRATA FÍLON E OS OUTROS EMBAIXADORES DOS JUDEUS DE ALEXANDRIA, SEM QUERER ESCUTAR SUAS RAZÕES. Mas é preciso passarmos agora ao que aconteceu no assunto que era o motivo de nossa embaixada. Chegou o dia, quando Caio devia nos dar audiência; quando fomos introduzidos à sua presença, foi-nos fácil conhecer, logo de início, por seu aspecto e seus gestos, que o teríamos por inimigo e não por juiz. Se ele tivesse querido agir como juiz, ele deveria ter examinado com seu conselho um negócio de tal importância, onde se tratava dos privilégios de uma grande multidão de judeus que moravam em Alexandria e de que gozavam há mais de quatrocentos anos e que se tinham até então observado, sem jamais revogá-los nem deles duvidar. Ele devia ouvir as partes: ele devia aceitar as advertências e pronunciar por fim um juízo justo e equânime. Mas, em vez de observar essas regras da justiça, o impiedoso tirano, enrugando o sobrecenho com brutal altivez, mandou vir dois intendentes dos jardins de Mecenas e de Lâmia, que estão perto da cidade e do seu palácio, onde ele se tinha já há três ou quatro dias retirado. Ordenou-lhes que abrissem as portas de diversos aposentos daqueles belos jardins, porque queria passear por toda a parte e nos fez entrar também. Caminhamos diante dele e o saudámos, dando-lhe o nome de Augusto e de imperador. A maneira com ele recebeu a saudação, tão mansamente e com tanta afabilidade, começou por nos fazer perder a esperança não somente do bom êxito da nossa empresa, mas até de nossa vida. Pois ele nos disse, franzindo a testa e com um riso sarcástico: "Não sois aqueles inimigos declarados dos deuses que, embora todos os outros me reconheçam por deus, me desprezais e preferis adorar um Deus que não se conhece?" Depois elevou as mãos para o céu e proferiu palavras que eu escutei com horror e não as posso repetir. Nossos adversários, então, não duvidando de que tinham ganho a causa, não puderam ocultar sua grande alegria e não houve um só de todos os nomes e títulos com que se honram os deuses, que eles não lhe dessem. Um certo Isidoro, que era um grande e perigoso caluniador, vendo que Caio escutava com grande prazer essas bajulações e elogios ímpios, disse-lhe: "Detestaríeis ainda mais esses homens e os que os mandam, se soubésseis quão grande é o ódio que eles vos têm. São os únicos de todos os homens que se recusam a oferecer vítimas pela vossa saúde e geralmente todos os dessa nação são do mesmo parecer". A estas palavras, nós exclamamos: "São calúnias, senhor! Imolamos hecatombes e depois de ter banhado o altar com o sangue das vítimas, nós não levamos a carne para comer, como fazem vários outros povos, mas as queimamos todas, no fogo sagrado. Assim fizemos por três vezes; a primeira quando subistes ao trono, a segunda quando ficastes curado daquela grave enfermi¬dade que afligiu toda a terra, e a terceira quando pedimos a Deus que vos fizesse vencedor da Alemanha". "É verdade", respondeu o furioso imperador, "oferecestes sacrifícios, mas a um outro e não a mim. Assim, que honra recebi então?" A estas palavras senti-mos o sangue gelar-nos nas veias. Caio, entretanto, visitava todos os aposentos, notava-lhes os defeitos, ordenava as modificações que queria se fizessem. Nós o seguíamos impelidos pelos nossos adversários, que se riam de nós; injuriavam-nos com satíricas e humilhantes zombarias, como fariam os palhaços num tea-tro, e na verdade aquele assunto poderia passar por uma comédia, que de verda¬de só tinha a aparência. Aquele que deveria ser o nosso juiz era nosso acusador, e nossos adversários animavam contra nós aquele mau juiz. Tendo-o então como inimigo e tal inimigo, que poderíamos fazer senão ficar em silêncio, que é uma espécie de defesa, principalmente nada tendo a responder, que lhe pudesse ser agradável, porque o temor de violar nossas santas leis nos fechava a boca. Depois de ter ele dado algumas ordens com relação aos edifícios, perguntou-nos seriamente e com gravidade, por que fazíamos dificuldade em comer carne de porco. Nossos adversários, então, para torná-lo ainda mais favorável a eles, por meio de suas adulações, puseram-se a gargalhar tão desabridamente, que alguns, mesmo dos ofici¬ais do príncipe, mal toleravam aquele desprezo e falta de respeito, que lhe era devido e que era tanto maior, quanto no estado em que ele estava, somente os seus mais íntimos poderiam sem perigo tomar a liberdade de apenas sorrir em sua presença. Assim respondemos: "Os costumes dos povos são diferentes e como há coisas que nos são permitidas e a outros não, assim há outras também que são proibidas aos nossos adversários". Um dos nossos acrescentou que há mesmo muitos que não co¬mem carne de carneiro e ele retorquiu rindo-se: "Eles têm razão. A carne não é boa". Essas zombarias aumentaram ainda nossas penas, mas por fim ele nos disse, com emoção: "Quisera saber em que direito fundais vosso direito de burguesia". Nós então começamos a apresentar-lhe nossas razões; ele achou facilmente que eram boas e nós quisemos então citar outras mais fortes, mas ele levantou-se de repente, foi depressa a uma grande sala, mandou fechar as janelas, cujos vidros impediam que o ar entrasse, somente deixavam passar a luz e eram tão claros e tão brilhantes que poderiam ser tidos por cristais de rocha. Depois veio a nós assaz mansamente e disse-nos com um tom moderado de voz: "Que me tendes então a dizer?" Quisemos então continuar a apresentar-lhe as nossas razões, em poucas palavras, mas em vez de nos escutar, ele foi correndo para outra sala, onde tinha ordenado que colocassem quadros de antigos pintores. Vendo assim o julgamento do nosso assunto interrompido e de tantas manei¬ras diferentes, julgando que nada mais tínhamos a fazer do que nos preparar para a morte, recorremos em tal contingência ao verdadeiro Deus, para rogar-lhe que nos salvasse do furor daquele falso deus. Ele teve compaixão de nós e sua infinita bondade acalmou a cólera de Caio. Ele ordenou que nos retirássemos e foi-se embora, depois de nos ter dito somente: "Essa gente não é tão má, quanto infeliz! São insensatos em não acreditar que eu sou de natureza divina". Foi assim que saímos não de um tribunal, mas de um teatro e de uma prisão, pois não era deveras uma comédia vermo-nos ridicularizados e motejados, desprezados mesmo? E os rigores de uma prisão são talvez comparáveis aos tormentos que nos faziam sofrer tantas blasfêmias contra Deus e tantas ameaças de um tão poderoso imperador, encolerizado contra nós, porque os judeus eram os únicos que resistiam à sua louca paixão de ser reconhecido como Deus? respiramos então um pouco, não por amor à vida, pois se nossa morte tivesse podido ser útil à conservação de nossas leis, nós a teríamos recebido com alegria, como podendo nos levar a uma feliz eterni¬dade; mas, além de inútil, ela teria sido também vergonhosa para os que nos tinham enviado porque ordinariamente não se julgam as coisas senão pelos seus resultados; esta razão fazia que nos consolássemos de algum modo por termos escapado de tão grande perigo em que nos encontrávamos, pela sentença que o imperador pronunci¬aria. Como poderia ele estar informado da justiça de nossa causa se ele não se dignava nem mesmo a nos ouvir? Que há de mais cruel do que ver a salvação de toda nossa nação depender da maneira como os seus cinco embaixadores eram tratados? Se Caio se declarasse em favor dos habitantes de Alexandria, que outra cidade deixaria os judeus em paz? Que outra os pouparia? Que outra não destruiria seus oratórios? Que outra não lhes procuraria impedir viver segundo suas leis? Assim, tratava-se da anula¬ção de todos os privilégios e de sua inteira ruína. Esses pensamentos nos esmagavam sob o peso da dor; não víamos recurso algum em nossa desgraça e aqueles que antes nos ajudavam, perdendo então a esperança no feliz resultado de nossa causa, retira¬vam-se sem mais nos querer auxiliar, quando nos mandavam chamar, tanto estavam persuadidos da bondade e da justiça daquele homem que queria passar por Deus. Contracapa História dos Hebreus De Abraão à queda de Jerusalém Tendo atravessado séculos até os nossos dias, a história do povo judeu, através do registro de Flávio Josefo, pemanece como o mais fidedigno elato dos acontecimentos contidos nas Escrituras. Diversas razões contribuíram para tornar esta uma obra-prima, não apenas a magnitude do assunto, mas também o fato de seu autor ser tanto testemunha ocular quanto coadjuvante de alguns dos eventos por ele narrados. Além disso, o que se revela em História dos Hebreus é a confirmação das promessas de Deus para o seu povo e o cumprimento de sua Palavra em todos os fatos registrados em suas páginas. O Autor De origem judaica, sendo também de linhagem sacerdotal, Flávio Josefo, um escritor e historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d.c., escreveu a obra que se tornaria, depois da Bíblia, a maior fonte de informações sobre os impérios da Antiguidade, o povo judeu e o Império Romano.