sábado, 1 de dezembro de 2012

Jonas


JONAS INTRODUÇÃO O livro de Jonas gira inteiramente em torno das relações pessoais entre Jeová e Seu servo, Jonas, filho de Amitai. Essas relações se originam numa comissão profética, da qual Jonas procurou evadir-se. Jonas descobriu que os pensamentos de Deus não eram os seus pensamentos e que seus caminhos não eram os caminhos de Deus. Mas Deus não deixou Jonas sozinho. Na primeira metade da história, Deus permite que Jonas chegue ao extremo de quase perder a própria vida, somente para em seguida restaurá-lo à posição onde ele se encontrava antes dele tentar, por meios físicos, evitar o mandado de Jeová. Na segunda metade da história o Senhor permite que Jonas chegue ao extremo da depressão mental e espiritual, somente para revelar a ele a correção essencial de Seus misericordiosos propósitos. I. A MENSAGEM E SUA FORMA A forma deste livro é a de uma peça de narrativa biográfica, semelhante (quanto ao estilo, linguagem, atmosfera e elementos miraculosos) a diversos incidentes de 1 e 2 Reis, concernentes, a Elias e Eliseu, os quais, realmente, foram predecessores imediatos de Jonas como profetas no reino do norte, Israel; e eles, à semelhança de Jonas, realizaram parte de seu trabalho em relação a povos pagãos -Elias à Sidônia, e Eliseu à Síria, enquanto que Jonas em relação a Nínive. A história de Jonas, entretanto, não é simplesmente um incidente isolado na história profética de Israel que facilmente poderia ser encaixada nos livros de Reis, onde o ministério de Jonas é mencionado (#2Rs 14.25). Mas sua mensagem é distinta e cada porção da história é relatada de forma a exibir essa mensagem. Por essa razão, o livro, encontra posição apropriada entre os profetas; diz respeito a uma revelação particular da verdade de Deus e essa revelação está intimamente relacionada com a experiência profética. A revelação particular com a qual o livro de Jonas se ocupa pode ser expressa nas palavras que formam a conclusão da história de Pedro e dos gentios, em #At 11.18: "Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida". Essa revelação, no livro de Jonas, foi transmitida de tal modo que salienta, por um lado, a soberana misericórdia e justiça de Deus, ao conceder a Nínive o "arrependimento para a vida", enquanto que, por outro lado, fica destacado o pecaminoso particularismo do servo de Deus, Jonas, ao resistir contra essa manifestação da vontade divina. II. BASE HISTÓRICA Visto que o livro de Jonas transmite uma mensagem distintiva, muitas pessoas, em anos recentes, têm imaginado que a narrativa não é histórica, mas antes, imaginada, e que, à semelhança da história do Bom Samaritano, por exemplo, deveria ser classificada como uma parábola. Porém, apesar de que este último ponto de vista não é inteiramente impossível, sem dúvida não é necessário imaginar que em vista de um livro ter um propósito didático (ou, conforme preferiríamos dizer, revelatório), não pode, ao mesmo tempo, ser uma narrativa histórica. #At 10.1-11.18, que, conforme já tivemos ocasião de sugerir, sob certos aspectos é o paralelo neotestamentário de Jonas, tem um motivo didático semelhante. Porém, ninguém apresenta a sugestão que Lucas pensava estar escrevendo uma parábola ou uma ficção homilética. Por semelhante modo, naturalmente, a presença de elemento miraculoso em um relato não é evidência que não foi registrado como narrativa histórica e que seu autor não tenha tencionado que fosse aceito como tal. Um grupo mais reduzido de pessoas tem apresentado a suposição que Jonas é uma alegoria do exílio e da missão de Israel. #Jr 51.34 é exibido como possível base para essa história. Esse ponto de vista, em parte, é uma tentativa de explicar as ocorrências na história que, de outro modo, teriam de ser consideradas miraculosas, e envolve a teoria, que o livro é produto do período pós-exílico. Uma vez mais, todavia, apesar de que podemos ter, legitimamente, um paralelo iluminador entre a experiência de Jonas e a que deveria sobrevir à nação israelita, de modo algum se segue que a história seja de data mais recente e não-histórica. Os livros da Bíblia não são produções fortuitas. O fato de Jonas haver sido engolido pelo grande peixe pode muito bem prefigurar o exílio, como certamente prefigura o sepultamento de Cristo. Qualquer avaliação do caráter histórico do livro de Jonas precisa levar em consideração os fatos seguintes: Primeiro, o próprio Jonas, sem dúvida alguma, foi um personagem histórico, um profeta de Jeová em Israel (#2Rs 14.25). Segundo, o livro foi lavrado na forma de narrativa histórica direta, não havendo indicação positiva que o livro deva ser interpretado doutra forma que não a literal. Terceiro, se esse livro é uma parábola ou alegoria, então é único e sem analogia entre os livros do Antigo Testamento. Quarto, nem os judeus nem os cristãos, até recentemente, jamais consideraram que o livro de Jonas registra outra coisa além de fatos reais, quaisquer que sejam as interpretações que tenham emprestado à sua mensagem. Finalmente, nosso Senhor Jesus Cristo claramente acreditava e sabia que o arrependimento dos homens de Nínive foi uma ocorrência real e é muito natural considerar Sua alusão aos "três dias e três noites no ventre da baleia", da experiência de Jonas (#Mt 12.40-41), do mesmo modo. Em adição, pode-se argumentar que a força total da autovindicação de Jeová perante Jonas exige uma missão real a uma cidade pagã, um arrependimento verdadeiro de sua parte, e haverem seus habitantes sido realmente "poupados" pelo Senhor. Não é fácil acreditar que o desafio que diz: "E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive...?" tenha sido apresentado ao povo de Israel, por intermédio do escritor inspirado, mediante uma consideração puramente hipotética. III. DATA E AUTORIA Não se pode chegar a certeza alguma no que diz respeito à data em que o livro foi escrito. Alguns têm argumentado que a história inteira não teria significado depois que Nínive foi realmente destruída (em 612 A. C.). Há alguma força nesse argumento. Então "Não hei de eu ter compaixão... de Nínive...?" não seria apenas uma consideração hipotética, mas uma consideração bastante mal escolhida. (#Jn 3.3 será considerado no comentário). Diversos eruditos proeminentes, em realidade, têm atribuído o livro a qualquer século, entre o oitavo e o segundo A. C. Porém, deve ser frisado que o principal motivo pelo qual muitos eruditos mantêm que esse livro seja produto do período pós-exílico é que "o pensamento geral e o teor do livro... pressupõe o ensino dos grandes profetas", incluindo Jeremias (S. R. Driver). Porém, não vemos razão que nos incline a acompanhar esse julgamento altamente subjetivo. "A presença de aramaísmos no livro não pode ser critério para determinar a data, visto que os aramaísmos ocorrem nos livros do Antigo Testamento desde os mais recuadas até os mais recentes períodos" (E. J. Young). Juntamente com a evidência lingüística, deve ser levado em consideração o fato que "não existe neles (Jonas, Joel, etc.) uma só palavra grega" e "nem uma palavra babilônica que já não tenha sido encontrada na literatura mais antiga" (R. D. Wilson). Essa evidência não dá apoio à teoria que Jonas pertence ao período pós-exílico. S. R. Driver, que defendia o ponto de vista pós-exílico, admitiu como possibilidade que "algumas das características lingüísticas podem ser consistentes com a origem pré-exílica, ao norte de Israel" (Introduction, pág. 301). Jonas exerceu seu ministério no reinado de Jeroboão II (793-753 A. C.), e parece muito natural supor que a história tenha sido originalmente posta em forma escrita algum tempo antes da queda do reino do norte, em 721 A. C., embora facilmente possa ter havido circunstâncias que ocorreram entre 721 A. C. e 612 A. C., quando Israel era governada por Nínive, que tenham possibilitado uma publicação mais lata do livro naquele período. Nada é dito no livro de Jonas acerca do seu autor. Embora o próprio Jonas, obviamente, deva ter sido a principal fonte final de informação para a história não há motivo pelo qual ele deva ter sido o autor. Sem dúvida a história logo se tornou conhecida em Israel e podemos presumir que os marinheiros tiveram sua contribuição para propagar o relato. O capítulo primeiro tem certo número da sinais de que o relato se derivou de outra fonte que não o próprio Jonas (como Atos 27). O versículo 5a, por exemplo, descreve o que teve lugar enquanto Jonas estava dormindo no porão do navio e o versículo 16 relata o que fizeram os marinheiros depois que Jonas foi lançado ao mar. Presumivelmente a embarcação regressou ao porto quando a tempestade amainou, visto que aparentemente ainda não se haviam afastado muito da terra (#Jn 1.13) e, de qualquer modo, a carga havia sido atirada borda fora (#Jn 1.5). Se Jonas, igualmente, retornou a Jope, talvez foi à base da informação prestada pelos marinheiros que ele foi capaz de calcular por quanto tempo estivera debaixo da água. IV. JONAS E JESUS Certo número de importantes passagens bíblicas deveriam ser estudadas paralelamente com o livro de Jonas. No Antigo Testamento, por exemplo, #Jr 1.4-10 (quanto à comissão profética), #Jr 18.7-10 (quanto ao efeito do arrependimento sobre a proclamação de Deus), #Sl 139; 16.8-11 (quanto à experiência do profeta). Em o Novo Testamento, #At 10.1-11.18 e #Rm 9-11, ilustram a mensagem missionária de Jonas, e vice-versa. Porém, em particular, as passagens nos evangelhos que se referem a Jonas, deveriam ser comparadas e estudadas (#Mt 12.38-41 e #Lc 11.29-32). Alguns pontos serão abordados no comentário. Aqui, entretanto, podemos notar que Jonas é o único profeta do Antigo Testamento com o qual Jesus se comparou diretamente, obviamente Jesus considerava a experiência e a missão de Jonas como de grande significação. É extremamente interessante, portanto, relembrar que tanto Jesus como Jonas foram "profetas da Galiléia". A cidade de Jonas, Gate-Hefer, ficava a apenas alguns poucos quilômetros ao norte de Nazaré, a cidade de Jesus. Era menos que uma viagem de uma hora a pé. Jesus deve ter ido lá freqüentemente. Talvez até em Seus dias o túmulo de Jonas fosse conhecido ali, como mais tarde, na época de Jerônimo. Foi ali que, nos dias de Sua obscuridade, Jesus começara a meditar sobre a significação de Jonas e de Sua própria missão? Os fariseus aparentemente se esqueceram de Jonas quando atacaram Nicodemos dizendo-lhe que "da Galiléia nenhum profeta surgiu" (#Jo 7.52). Tivesse ele pesquisado as Escrituras com mais cuidado, não teriam errado tanto, ao deixar também de perceber que "está aqui quem é mais do que Jonas" (#Mt 12.41). Jn-1.1 I. A COMISSÃO A JONAS, DADA E REJEITADA Jn 1.1-3 Jonas aparece como alguém para quem veio a palavra do Senhor, isto é, como para um profeta. (Cfr. #2Rs 14.25 quanto a outros detalhes sobre Jonas). Sua incumbência foi tão incomum quanto indesejável, pois Nínive, poderosa e famosa, era capital do império pagão da Assíria, o inimigo constante de Israel. A frase subiu até mim (2) apresenta Jeová como "Juiz de toda a terra (#Gn 18.25; cfr. #Gn 6.13). Imediatamente Jonas resignou sua comissão profética, de modo deliberado. A ênfase sobre o fato de fugiu de diante da face do Senhor (3; ver também #Jn 1.10) não subentende uma crença como a de Naamã, em #2Rs 5.17, de que a presença de Jeová se restringisse ao solo de Israel. Os versículos 2b e 9 provam o contrário. Pelo contrário, tal fato indica que o profeta se retirara da intimidade com Jeová. Não mais podia o profeta dizer sobre seu Deus, "perante cuja face estou" (#1Rs 17.1). Jonas fez o que Moisés temeu fazer (#Êx 33.14-15), e também perdeu o "descanso" que acompanha a presença de Deus. Com um gesto de independência, o servo de Jeová escolheu um destino, Társis, no outro extremo do mar Mediterrâneo, bem longe de onde se encontrava. Passando a depender então de seus recursos, ele pagou, pois, a sua passagem no navio e embarcou (3). Jope, que é a moderna cidade de Jafa, é o único porto considerável na costa da Palestina. É interessante observar que Jope também desempenha importante papel, na história do Novo Testamento sobre Pedro e os gentios, em #At 10.1-11.18. >Jn-1.4 II. A FUGA DE JONAS E A PERSEGUIÇÃO DE JEOVÁ Jn 1.4-17 A desesperada tentativa de Jonas para escapar de Deus, até o ponto de aceitar a morte por afogamento e o fato de Deus ter recuperado Jonas, ocupa a porção mais volumosa da narrativa. O profeta desobediente não pôde escapar de Jeová. Mas, por enquanto, ainda não fomos informados sobre qual razão levou Jonas a preferir desobedecer à ordem de Jeová; isso desvendado adiante, em seu próprio lugar. Aqui temos de enfrentar um fato fundamental acerca dos propósitos eletivos de Deus, a saber, que "os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento" (#Rm 11.29). A todos os Seus profetas Jeová disse, tal como Jesus disse a Seus apóstolos: "Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós" (#Jo 15.16). Jeová tomou duas providências para recuperar Jonas. Primeiramente, o Senhor mandou ao mar um grande vento (4). Isso deu em resultado o terem ficado aterrorizados os marinheiros, o ter Jonas sido descoberto como causador do tufão e o ter sido ele jogado borda fora. Em segundo lugar, Deparou (lit., "apontou") um grande peixe, para que tragasse a Jonas (17; ver anotação abaixo). Esse foi o meio de preservá-lo da morte, fazendo com que ficasse à mercê de Deus. Os instrumentos de Deus, neste caso, foram um grande vento e um grande peixe. Comparem-se outras ocasiões quando Deus operou a favor de Seu povo manobrando Sua criação, como, por exemplo, por ocasião da saída dos israelitas do Egito. >Jn-1.5 É instrutivo estudar a experiência de Jonas à luz de #Sl 139. Os pensamentos, as palavras e cada movimento do escritor eram conhecidos por Jeová "para onde fugirei da tua face?" pergunta ele. "Se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também... Se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá" (#Sl 139.7-10). Assim também foi a experiência de Jonas. O relato do navio a ponto de naufragar é gráfico e realista- o violento temporal, os marinheiros (5; lit., "sais") de muitas raças e religiões, seu pânico, o excitado interrogatório de Jonas, a relutância dos marinheiros em tomar a providência extrema sugerida pelo profeta, os marinheiros a remar freneticamente. A Septuaginta adiciona o detalhe que foi o ronco de Jonas, a dormir nos lugares do porão (5; lit., "partes internas da coberta inferior") que atraiu a atenção do mestre do navio para o suspeito viajante. >Jn-1.10 O comportamento de Jonas é contrastado com o comportamento dos marinheiros pagãos. Estes estavam possuídos, de forte senso de obrigação religiosa e se admiravam da temeridade de Jonas, que fugia da presença de seu Deus (10). Mostraram-se escrupulosos quando parecia inevitável que Jonas fosse lançado ao mar; e quando o mar finalmente se acalmou, demonstraram temor apropriado para com Jeová (16). Não obstante, esse incidente claramente mostra que Jonas não era um covarde. Ele se mostrava comparativamente calmo e equilibrado. Professou sua fé e sua culpa deliberadamente, e de igual modo deliberado preferiu afogar-se para que outros não viessem a perecer por sua causa. Não há dúvida que ele considerava sua morte iminente como castigo de Jeová. A comparação do comportamento do Jonas com os dos personagens da #At 27 e #Mc 4.35-41 (e paralelos) prova ser instrutiva. >Jn-1.17 Deparou pois o Senhor um grande peixe (17). Note-se que o único lugar onde é empregado o termo "baleia" (e mesmo assim não em todas as versões) é em #Mt 12.40, onde a palavra grega assim traduzida significa "enorme peixe". G. C. Aalders (The Problem of the Book of Jonah) salienta que há certo número de enormes criaturas marinhas, capazes de tragar um homem adulto de forma bastante fácil e se refere a um caso real mencionado no Princeton Theological Review (1927). Esse peixe talvez tenha sido o "cachalote", que de fato é encontrado no Mediterrâneo, e que não tem a garganta estreita da verdadeira baleia, a qual, de qualquer modo, não é encontrada naquelas águas. A informação que Jonas ficou aprisionado no ventre do peixe por três dias e três noites (17), se sua intenção foi ser aceita literalmente, provavelmente não foi suprida pelo próprio Jonas, o qual, mesmo que tivesse mantido a consciência durante todo o tempo, dificilmente teria tido meios de marcar a passagem dos dias. Portanto, esse período deve ter sido calculado à base da informação suprida pelos marinheiros. Por outro lado, três dias e três noites pode ser apenas uma expressão aproximada para um período mais curto de tempo (cfr. #Jn 3.3 e #Js 2.16). A adição de três noites não empresta necessariamente exatidão à expressão, e sabemos que algures a expressão "depois de três dias" é equivalente a "ao terceiro dia". Cfr. as referências do Novo Testamento sobre a duração do sepultamento de Jesus (por exemplo, #1Co 15.4). #Mt 12.40 mostra que "três dias e três noites" era expressão considerada então como suficientemente exata para denotar um período de não mais de trinta e seis horas. Jn-2.1 III. A ORAÇÃO DE JONAS, NO VENTRE DO PEIXE Jn 2.1-10 Nesta seção, Jonas descreve sua experiência, atribuindo a salvação a Jeová e então foi devolvido à terra. Talvez o relato queira que observemos o contraste na posição de Jonas: ele, que estando no navio, aparentemente se recusava a levantar-se e invocar o nome de seu Deus (#Jn 1.6), agora sentia-se constrangido a orar ao Senhor seu Deus, das entranhas do peixe (#Jn 2.1). A oração de Jonas, um salmo em métrica hebraica elegíaca, de vez em quando é declarada como uma inserção estranha. Não obstante, é muito apropriada em seu contexto e não necessitamos de duvidar que seu conteúdo essencial pertença à ocasião à qual é atribuída, mesmo que sua forma poética pertença ao período de reflexão, após o livramento do profeta. Algumas de suas frases relembram frases em outros salmos, mas, considerando a oração como um todo, é distinto de qualquer dos salmos existentes. Note-se, todavia, que se trata de um salmo de agradecimento a Jeová que livrou o profeta do Seol (morte), e não como alguns críticos parecem pensar que deveria ser, uma oração para ser salvo do peixe. Primeiramente Jonas descreve como, em sua desesperada situação, ruiu sua resistência voluntária a Jeová, e quando o horror de sua situação o impressionou ele clamou em desespero a seu Deus. (Cfr. o grito espontâneo de Pedro, em #Mt 14.30). O ventre do inferno (2) é o lugar dos mortos (Seol) (a palavra usada aqui para ventre é diferente da que é usada para ventre do peixe) cujos habitantes eram considerados como cortados da mão de Deus para nunca mais serem lembrados por Ele (#Sl 88.5; ler este Salmo inteiro que dá uma descrição sobre o Seol, o que tornará mais compreensível o horror de Jonas). >Jn-2.4 Há certas bases para pensar-se que a segunda porção do versículo 4 deveria ser levemente corrigida para que lesse: "Como tornarei a ver...?" Jonas estava, realmente, em desesperada situação. O templo da tua santidade (4), aqui como no versículo 7, simboliza o lugar da presença de Jeová, de onde Jonas havia fugido. Isso forma um contraste extremo com o ventre do inferno. Em qualquer que tenha sido o santuário em que Jonas estivesse acostumado a adorar em Israel, é provável que aquele que adorava o Deus do céu estava aqui pensando sobre o templo da tua santidade como "céus, assento da tua habitação" (#1Rs 8.39). >Jn-2.7 A seqüência de pensamento, nos versículos 2-7, sugere que após a desesperada oração, Jonas foi dominado pela água e pela pressão das profundezas, e que a próxima coisa de que tomou consciência foi de que simplesmente ainda estava vivo. Se tivermos de considerar que seu agradecimento foi proferido perto do término do período de três dias, podemos supor que durante a maior parte do tempo anterior ele estava desmaiado, como talvez já se encontrava quando foi tragado pelo grande peixe. Nesse caso, ele passou pela outra experiência referida em #Sl 139.18: "quando acordo ainda estou contigo". >Jn-2.6 >Jn-2.8 Devemos notar, entretanto, que embora Jonas estivesse agora pronto para receber o mandado de Deus, não havia qualquer evidência que sentia compaixão pelos ninivitas. Sua experiência quanto à misericórdia de Deus apenas o confirmou em sua crença que aqueles que observam as vaidades vãs (isto é, adoram deuses falsos ou ídolos), deixam a sua própria misericórdia (isto é, separam-se de Jeová, a única verdadeira fonte de socorro para eles) (8). Essa evidência sobre o exclusivismo de Jonas, mesmo em meio às misericórdias de Jeová, fornece um ponto a mais para a repreensão do Senhor a Jonas, no capítulo 4. Essa atitude, entretanto, não era peculiar a Jonas. O Salmo 139 nos dá, uma vez mais um paralelo. Anote a transição semelhante de pensamento ali, do versículo 18 para os versículos 19 e segs. Este salmo de Jonas se reveste de importância especial à luz da referência que Jesus fez a ele, em #Mt 12.40; pois a natureza da semelhança entre a experiência de Jonas e a de Cristo pode ser mais claramente observada aqui. Assim, Jesus, que é maior que Jonas, o verdadeiro Servo e Profeta de Jeová, chegou ao extremo do sofrimento humano (por causa da desobediência de outros). O que Jonas suportou em figura" (#Hb 11.19 -uma figura semelhante de morte) Jesus suportou em realidade. Em sua "aflição" Ele desceu ao "ventre do inferno" e as "vagas de Deus passaram sobre Ele" (cfr. #Is 53). Assim como Jonas clamou: Lançado estou de diante dos teus olhos (4), semelhantemente Cristo foi constrangido a clamar: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (#Mt 27.46). Não obstante, o sepultamento de Jesus não somente denotou a extrema intensidade de Sua paixão (conforme estabelece o Credo: "Ele desceu aos infernos", isto é, ao Hades ou Seol); mas igualmente destacou a realidade de Seu livramento, da morte para a vida. Estude-se o sermão pentecostal de Pedro, em Atos 2 especialmente os versículos #At 2.24, e segs. "ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela". O testemunho de Jonas, mas tu livraste a minha vida da perdição (6), tem um notável paralelo no versículo de #Sl 16.10, citado por Pedro em #At 2.27: "porque não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção". Jn-3.1 IV. A COMISSÃO PROFÉTICA É REITERADA E ACEITA Jn 3.1-9 Tendo sido devolvido à terra por mandamento de Jeová, Jonas foi comissionado segunda vez. Castigado por suas experiências, ele agora obedece, embora, aparentemente, não se sentisse mais caritativamente disposto para com Nínive do que antes. A pregação que eu te disse (2) salienta que o pregador não fala de si mesmo, mas, "de acordo com os oráculos de Deus" (#1Pe 4.11). O que é verdade sobre Cristo, o Filho, a Palavra eterna, também deve ser verdade acerca de todos os Seus servos: "o enviado de Deus fala as palavras dele" (#Jo 3.34). Ver, semelhantemente, o caso de Moisés (#Êx 4.10-16), de Jeremias (#Jr 1.6-9), e dos discípulos de Jesus (#Mt 10.19-20). Jonas sabia, desde o princípio, que lhe competia pregar a pregação que Deus lhe tinha ordenado; ele fora um profeta desobediente e não um profeta falso. >Jn-3.3 Um particular do versículo 3 chama a atenção para a vastidão de Nínive e, assim, para a tarefa de Jonas. Grande cidade é, literalmente, "grande cidade para Deus" ou "grande cidade perante Deus", o que é um modo regular de expressar o superlativo em hebraico. Assim, Moisés é descrito em #At 7.20 como "formoso aos olhos de Deus". Há uma certa ponta de ironia nessa expressão aqui; pois destaca a estima que Deus fazia de Nínive, diferente da estima de Jonas. Esse particular, no entanto, tem causado dificuldades para algumas pessoas, que se baseiam em duas coisas. Primeiramente, o verbo era está no tempo perfeito no hebraico, o que para aquelas pessoas parece deixar implicado que então Nínive há muito já havia perecido (assim apoiando uma data posterior para o livro). Em segundo lugar, a moderna pesquisa arqueológica não confirma totalmente o grande tamanho de Nínive. A primeira dificuldade não é decisiva, pois, visto que a narrativa inteira é posta no passado, a afirmação que era pois Nínive uma grande cidade não precisa implicar mais que assim ela era quando Jonas esteve ali. (Naturalmente que isso pode ser uma glossa posterior; e seria uma glossa natural, pois tais anotações, por escribas habilidosos não são desconhecidas nos manuscritos antigos. Mas é curioso que as pessoas que são normalmente inclinadas a descobrir interpolações secundárias, nos livros do Antigo Testamento, preferem destacar esse particular como parte do texto, e usá-lo como alavanca para empurrar a data do livro inteiro para algum tempo muito depois da queda de Nínive, que ocorreu em 612 A. C.). A segunda dificuldade é, igualmente, capaz de ser solucionada. A própria cidade de Nínive, segundo as dimensões dadas por Senaqueribe e pelas modernas pesquisas em suas ruínas (cerca de 18 quilômetros), era consideravelmente menor que a linguagem de Jonas dá a entender. #Gn 10.12, entretanto, aplica o título "grande cidade" a quatro cidades na área, das quais a própria Nínive é a primeira a ser nomeada e a mais importante. Recentes descobertas arqueológicas demonstram que uma dessas, Calá, tinha uma população de 70.000; e por seus muros, fica-se sabendo que essa cidade era cerca de metade do tamanho de Nínive, o que explica que a mui debatida cifra de cento e vinte mil homens (#Jn 4.11) é, mais provavelmente, um recenseamento de Nínive quando em seu maior surto populoso. Em tempos posteriores foi calculado (por Quitésias e Diodoro) que Nínive tinha um circuito de cerca de 480 estádios, ou cerca de 96 quilômetros, e isso parece refletir a tradição de uma cidade extremamente grande (embora toda essa extensão nunca tenha sido circunscrita por um muro só, como Diodoro parece ter pensado). O circuito inteiro das quatro sedes do distrito de Nínive é, de fato, 99 quilômetros, ou seja, cerca de três dias de caminho. Ora, em adição ao particular em #Jn 3.3, que estamos a considerar, Nínive, em três ocasiões separadas, é descrita como a grande cidade (#Jn 1.2; #Jn 3.2-4.11) e a adição desse termo pode indicar que aqui está em vista a área ou "distrito" maior, deliberadamente. Podemos comparar isso com designações modernas como "a Grande Londres". É possível que seja significativo o fato que o termo "grande" não é adicionado em #Jn 4.5; a cidade, aqui, indubitavelmente é a própria Nínive, a cidade de caminho dum dia (#Jn 3.4), onde Jonas chegou aos ouvidos do rei de Nínive, mediante cuja proclamação o jejum de arrependimento se estendeu a todo o povo de Nínive. >Jn-3.7 Não sabemos quais outras circunstâncias, em Nínive, possam ter sido favoráveis à produção da contrição, mas a pregação de Jonas, sobre condenação iminente-a única verdadeira "profecia" neste livro profético-resultou num imediato e generalizado arrependimento. O próprio rei ordenou um jejum. Note-se a curiosa inclusão dos animais nesse jejum (7), como em Judite 4.9 e segs., e na fome referida em #Jl 1.19-20. Os próprios animais do campo, que clamam ao Senhor, são objetos de Sua compaixão, conforme as últimas palavras do livro de Jonas nos informam. "O sinal de Jonas" (#Mt 16.4) inclui não apenas a sua "morte" e "ressurreição", mas também sua pregação, em virtude dessa "ressurreição", à gentia cidade de Nínive. Pondere-se sobre a grande importância desse sinal para a geração de Cristo (#Lc 11.29 e segs., #Mt 12.38 e segs.) e para nossa própria geração. >Jn-3.10 V. DUAS REAÇÕES AO ARREPENDIMENTO DE JONAS: JEOVÁ DESAFIA A JONAS Jn 3.10-4.11 E Deus se arrependeu do mal (10)... mas desgostou-se Jonas extremamente (4.1). O "arrependimento" de Deus e o fato de ter suspendido o julgamento não foram, naturalmente, arbitrários. É um postulado básico do livro de Jonas que Deus se arrependeu do mal (ver #Jl 2.13-14 e especialmente #Jr 18.6-10).

Habacuque


HABACUQUE INTRODUÇÃO I. AUTOR Nada sabemos a respeito de Habacuque fora das informações prestadas neste livro, mas mesmo aqui ele não nos fornece sua genealogia nem nos diz quando profetizou. O próprio nome é aparentado de um vocábulo assírio, que significa uma planta ou vegetal. Na Septuaginta, seu nome aparece como Ambakoum. Jerônimo a derivou de uma raiz hebraica que significa "segurar", e disse que: "ele é chamado "Abraço" ou por causa de seu amor ao Senhor, ou porque lutava contra Deus". Lutero, e muitos comentadores modernos, têm favorecido a mesma derivação. Certamente não é derivação inapropriada, pois neste pequeno livro vemos um homem, em ânsia mortal, em luta com o grande problema da teodicéia-a justiça divina-em um mundo desordenado. Encontramos a mesma espécie de conflito no mais volumoso livro de Jó. Habacuque foi o primeiro profeta a impugnar não a Israel, porém a Deus. O livro contém um solilóquio entre ele mesmo e o Todo-Poderoso. O que o deixava perplexo era a aparente discrepância entre a revelação e a experiência. Ele procurava explicação para isso. Nenhuma resposta direta é dada à sua interrogação, mas é-lhe assegurado que a fé paciente terminará saindo vencedora (#Hc 2.4). Ele expressa sua fé mui vividamente, em #Hc 3.17-19, onde o sentimento encontra um eco mais recente, no hino de William Cowper: "Deus é Seu próprio intérprete, e Ele deixará claro". Por causa do arranjo musical do capítulo 3, alguns têm pensado que Habacuque foi levita. É possível que ele tenha sido membro de um grupo profissional de profetas, associados ao templo (#1Cr 25.1). Ele é o único dos profetas canônicos que a si mesmo chama de "profeta" (#Hc 1.1), e julga-se que isso indica posição profissional. Habacuque aparece na história apócrifa de Bel e o Dragão, como aquele que livrou Daniel da cova dos leões pela segunda vez; porém, tudo isso não passa da lenda. II. DATA E OCASIÃO Em #Hc 1.6 somos informados que Deus estava levantando os caldeus (isto é, os babilônios) como um instrumento de castigo. Sem dúvida isso se refere ao império babilônico revivificado, que derrubou o enfraquecido império assírio no fim do quinto século A.C. Nínive foi destruída em 612 A.C. e Nabucodonosor, rei da Babilônia, derrotou Faraó Neco, do Egito, em Carquemis, em 605 A.C. Três anos antes dessa batalha, Faraó Neco matou Josias, rei de Judá, em Megido (#2Rs 23.29-30; #2Cr 35.20 e segs.), e estabeleceu reis títeres sobre o trono de Judá, porém, nem Faraó Neco nem eles eram adversários para o crescente poder da Babilônia, e assim, durante os vinte anos seguintes, Judá ficou à mercê dos caldeus e foi finalmente levado em cativeiro, em 586 A. C. As profecias de Habacuque se referem claramente a esse período e podem ter sido entregues a público ou antes ou depois da batalha de Carquemis. Em ambos os casos, Habacuque teria sido contemporâneo de Jeremias (627-586 A. C.). Em favor da data mais antiga temos a sugestão, em #Hc 1.5, que o levantamento dos caldeus ainda era acontecimento futuro e, no tempo em que o profeta falou, era ainda algo que fazia as pessoas se admirarem (E. B. Pusey, por exemplo, data a profecia tão cedo como o fim do reinado de Manassés, isto é, tão recuada como a frase em vossos dias, em #Hc 1.5, permite); em favor de uma data depois de 605 A. C. temos a descrição detalhada dos métodos de guerra dos caldeus, como algo já bem conhecido (#Hc 1.7-11). O reinado do mau rei, Manassés fora "uma época que provou a fé das almas piedosas" (Kirkpatrick). A reforma sob o rei Josias (637-608 A. C.) se tinha mostrado ineficaz, pelo que a iniqüidade e a perversidade (#Hc 1.3) da desviada Judá deveriam ser castigadas. Por esse motivo Deus estava levantando os caldeus. Esse o ponto de vista geral dos eruditos. Alguns, entretanto, referem #Hc 1.2-4 não à desviada Judá, mas a algum opressor pagão. Esse opressor poderia ser a própria Caldéia; nesse caso, o texto teria de ser rearranjado para que os versículos 5-11 precedessem os versículos 2-4 (Giesebrecht) ou deveriam ser eliminados (Wellhausen). Ou o opressor poderia ter sido a Assíria: assim pensa Budde, que coloca os versículos 6-11 após #Hc 2.2-4, e data a profecia logo depois de 625 A. C., quando Nabopolassar, o caldeu, se tornou independente da Assíria. Mas, nesse caso, por que a Assíria não é mencionada? Em terceiro lugar, há a possibilidade de referir-se ao Egito: assim pensa G. Adam Smith, que compara #Hc 1.2-4 com #2Rs 23.33-35. Porém, a queixa de Habacuque, em #Hc 1.12-2.1 não é que Deus estava usando uma nação pagã para castigar outra, mas antes, que o Senhor estava usando uma nação pagã para punir Judá. A despeito da lei haver sido redescoberta no templo, em 621 A. C. (#2Rs 22.8; cfr. #Hc 1.4), o povo de Judá se inclinava para a violência e para a injustiça. O rearranjo do texto, para adaptar-se a uma teoria particular, é sempre um expediente duvidoso. Parece mais seguro aceitar o texto tal qual está e atribuir #Hc 1.2-4 ao povo de Judá. Um crítico conservador, W. A. Wordsworth, situa a entrega da profecia um século antes, fazendo Habacuque ser contemporâneo de Isaías, com cujas profecias encontra ele muitas afinidades em Habacuque. A data fixadora é, então, a captura de Babilônia pelo caldeu Merodaque-Baladã, em 721 A. C. Outros, com certa base de apoio à sua posição da parte das versões gregas, omitem inteiramente a palavra "caldeus", em #Hc 1.6, ou então, juntamente com Duhm, substituem-na pela palavra "Quitim", isto é, gregos cipriotas, assim colocando o livro nos dias de Alexandre, o Grande, cerca de 333 A C. Tais pontos de vista exigem considerável manuseio no texto e não são muito plausíveis. Mas é interessante notar que os Papiros do Mar Morto, recentemente descobertos, que contêm o comentário de Habacuque embora lhe falte a primeira metade de #Hc 1.6 traz a seguinte nota a respeito: "interprete-se (isso) como os Quitim, cujo temor está sobre todas as nações". Isso, entretanto, pode ter sido apenas uma "aplicação moderna" de uma situação mais antiga. Parece melhor, por conseguinte, situar a data do livro de Habacuque cerca de 600 A. C., ou um pouco antes. III. TEXTO E COMPOSIÇÃO O significado do texto hebraico nem sempre é claro e a Septuaginta apresenta algumas poucas mas interessantes variações, como, por exemplo, a grande afirmativa em #Hc 2.4, que, em um texto da Septuaginta é "totalmente messiânica" (T. W. Manson). Ver anotação in loco. A incerteza quanto a quem se referem várias passagens, tem levado muitos críticos a rearranjar o texto e, em alguns casos, até a dividir a autoria do livro. Para alguns, Habacuque seria o autor dos capítulos 1 e 2; para outros, seria ele o autor do capítulo 1 e da maior parte do capítulo 2, enquanto que o capítulo 3 seria um poema posterior, do período persa ou dos macabeus. Mas muitos, à semelhança de Kirkpatrick, de J. Peterson, e de outros, preferem considerar o livro como um todo artístico e relacionado. Parece que a intenção da profecia era de ser lida e não de ser ouvida (ver #Hc 2.2). Tem mais a natureza de um poema especulatório e meditativo do que um sermão ou discurso público. O salmo, no capítulo 3, evidentemente tinha o propósito de encorajar o povo de Deus em período de adversidade. Hc-1.1 I. INTRODUÇÃO Hc 1.1 O tema é maior e mais importante que o homem, o que explica a breve menção do nome do profeta e sua posição, juntamente com o seu peso, isto é, sua declaração profética ou oráculo. Essa palavra é praticamente sinônima de "revelação": por isso ele viu (como um "vidente"); cfr. #2Rs 9.25. >Hc-1.2 II. PRIMEIRA QUEIXA Hc 1.2-4 Até quando, Senhor, clamarei eu...? (2). O profeta fala como se fosse a consciência da nação. Ele estava perturbado devido à presença da iniqüidade entre o povo de Deus, em detrimento de todas as instituições religiosas. A lei (isto é, a torah) se afrouxa (4). Por que Deus não intervinha? Tal pergunta poderia levantar-se somente em Israel. Somente para homens que acreditam em um único Deus, que é ao mesmo tempo santo e bom do mesmo modo que é o onipotente criador e sustentador do universo, poderia haver qualquer problema real de teodicéia. O dilema, "se existe Deus, então por que o mal?" não é dilema para aqueles que acreditam num panteão de divindades em luta, cuja moral dificilmente é diferente da moral comum de homens e mulheres. O pensamento sobre a indesviável justiça de Deus de pronto cria uma tensão à luz das experiências diárias e exige uma explicação. Há ocasiões, na vida de alguns homens, quando essa tensão se torna particularmente aguda, conforme vemos aqui. O ímpio cerca o justo (4); rodeia-o como um inimigo, tendo em vista provocar-lhe a ruína. >Hc-1.5 III. A RESPOSTA DE DEUS Hc 1.5-11 Os caldeus, que já estavam distribuindo destruição entre as nações circunvizinhas, haveriam de voltar-se contra Judá e tornar-se-iam, nas mãos de Deus, um instrumento de castigo. Essa é a obra de que Deus diz: vós não crereis (5), tão incrível pareceria ela. Pois os caldeus adoravam seu próprio poder (11), e para eles o direito era sua força. Eram lei para si mesmos (7b) e zombavam de toda autoridade (10). Em lugar de entre as nações (5; em heb., gaboyyim), leia-se "vós obreiros da iniqüidade" (em heb., bôgh’-dhîm), ou "criaturas infiéis" (Moffatt). No versículo 8, pode-se omitir a segunda vez em que aparece seus cavaleiros. Águias (8), naturalmente, é o abutre. O versículo 11 é obscuro. Talvez seja melhor corrigir o texto, traduzindo-o como: "e seu espírito (isto é, propósito) se altera e ele levanta um altar para seu deus (I. C. C.), isto é, lendo-se wayyâsem, "e ele levanta", em lugar de w’âshem, "e ele é culpado". Contudo, W. A. Wordsworth traduz: "Eu apontarei aquele cujo poder é o de seu Deus", isto é, o rei messiânico. >Hc-1.12 IV. SEGUNDA QUEIXA Hc 1.12-2.1 Se os caldeus idolatravam sua própria força bruta, como poderiam ser eles usados por um Deus que não pode, por Sua própria natureza, ver o mal (13)? E se esse Deus vier a usá-los, então Ele terá de ser semelhante a eles, tratando os homens como se fossem os peixes do mar (14), para serem capturados e mortos à vontade, cuja única consideração é o prazer que se deriva de sua destruição (15 e segs.). A natureza revelada de Deus e o objetivo real de adoração dos caldeus parecem morrer perante a suposição que Deus pudesse usar os caldeus. O profeta não via possibilidade de explicação, de qualquer dos lados. Deus tinha de vindicar a Si mesmo. Vigiarei... o que eu responderei (#Hc 2.1). O profeta estava profundamente consciente da urgência da situação. "Ele tinha um posto a manter, uma trincheira a guardar" (G. Adam Smith). Nós não morreremos (12). O Talmude tem: "Tu não morrerás", o que faz melhor sentido. Não é necessário considerar a segunda metade deste versículo como uma intrusão (sic I. C. C.). O que cria o problema para Habacuque é o fato que para juízo o puseste. A Septuaginta tem uma tradução diferente. No versículo 16 há um trocadilho referente à palavra rede e à palavra "coisa maldita", que é praticamente a mesma coisa em hebraico. Hc-2.1 O que eu responderei (2.1). Assim diz o heb., a Septuaginta e certas versões, como está mas talvez seja melhor ler: "o que Ele responderá". A pessoa foi trocada, por algum escriba, movido pelo senso de reverência. O pensamento que Deus estava perante um tribunal de justiça humana é certamente espantoso. >Hc-2.2 V. A RESPOSTA DE DEUS Hc 2.2-4 A Caldéia, o instrumento que Deus usaria para punir, estava por sua vez debaixo do julgamento de Deus e não escaparia da justa penalidade por seus atos errados. A arrogância e a fidelidade têm, cada qual, sua própria recompensa, como aqueles que esperam verão. À primeira vista, parece não haver qualquer coisa muito inspiradora nessa asserção. Alguns têm mesmo duvidado que isso constitua uma "revelação". Porém, conforme tem sido frisado, aqui há mais do que cai sob a vista dos olhos, e o emprego desta passagem no Antigo Testamento demonstra que de fato é uma passagem cheia de significação. Mas, quaisquer que sejam os tesouros que a declaração de 4b mais tarde desvende, uma coisa torna-se clara logo de início, e é que o próprio profeta finalmente percebeu que o único elemento duradouro em um mundo instável e iníquo é o caráter. A tirania, a ganância e o orgulho estão todos condenados; apenas a integridade continua. Torna-se bem legível sobre tábuas (2). Tabletes de argila eram usados na Babilônia (cfr. #Is 8.1). Para que a possa ler o que correndo passa (2). No hebraico é uma expressão idiomática, aqui muito bem traduzida. Mais exatamente poderíamos traduzi-la: "para que possa lê-la imediatamente (quem quer que a veja)". O justo pela sua fé viverá (4). Esse grande tema é desdobrado pelo apóstolo Paulo, em #Rm 1.17; #Gl 3.11, e pelo autor da Epístola aos Hebreus, em #Hb 10.38. A primeira metade do versículo é diferentemente traduzida pela Septuaginta, que diz: "se ele, isto é, o prometido remidor que certamente virá (3), recuar, minha alma não tem prazer nele". Essa versão é reproduzida em #Hb 10.38, mas as cláusulas se acham ali invertidas. E a Septuaginta prossegue: "mas o justo viverá por minha fé". Esse "minha" é omitido em #Hb 10.38. O texto hebraico de Habacuque (cfr. também #Rm 1.17; #Gl 3.11) tem "sua fé", e a referência, nesse caso, não é ao Messias, que deverá provar Sua identidade por corajosa fidelidade à Sua comissão, mas antes, a referência é à alma crente que, na "fé" tem a pedra de toque da perseverança. Viverá é usado no significativo sentido de desfrutar do favor de Deus, com ou sem benefícios temporais. Aqui está em foco não tanto a "fé", mas antes, a "fidelidade"; o termo é mais lato que para Paulo ou para o escritor de Hebreus. Porém, "essa fidelidade deve originar-se na fé: portanto, a introspecção de Paulo é a verdadeira" (Kirkpatrick). Calvino diz ad loc.: "aqui o profeta fala sobre o estado da vida presente. Que tem isso a ver com a salvação da alma? Mas, quaisquer benefícios conferidos pelo Senhor aos fiéis, nesta vida, têm a intenção de confirmá-los na esperança da herança eterna. Portanto, quando Habacuque promete vida no futuro, aos fiéis, indubitavelmente ele salta por cima dos limites deste mundo e apresenta perante os fiéis uma vida melhor do que esta que agora têm aqui". >Hc-2.5 VI. OS CINCO AIS Hc 2.5-20 Estes versículos contêm cinco predições sobre a condenação da alma "inchada". Cfr. os seis ais de #Is 5.8 e segs. Note-se a frase repetida, por causa do sangue dos homens... nos versículos 8 e 17, que originalmente pode ter sido um refrão que concluía cada um dos cinco ais. Alguns críticos consideram os três últimos ais como uma adição posterior, mas S. R. Driver aceita todos os cinco como autênticos. Os versículos 5-6a são introdutórios, mas o texto do versículo 5 está corrompido. Talvez uma cláusula adverbial, "como com vinho", achava-se aqui originalmente. >Hc-2.6 a) Ai contra a agressão (Hc 2.6-8) As duas palavras hebraicas traduzidas como dívidas (6), só têm esse sentido quando reunidas, pois separadas significam "argila grossa". O saqueador seria por sua vez saqueado. >Hc-2.9 b) Ai contra a altivez (Hc 2.9-11) Para pôr o seu ninho no alto (9). Assim como os pássaros fazem seus ninhos no alto das árvores altas, assim buscava ele colocar-se fora do alcance do dano. Em lugar de trave (11) a Ssptuaginta tem "escaravelho" (em grego, kantharos). Talvez um engano, em lugar de cânfora, a resina do pinho, que, como gotas de sangue, clamavam contra o opressor. A raiz da palavra hebraica pode ser "cavar" ou "cinzelar", pelo que pode referir-se a imagens esculpidas-"ídolos mudos clamando por uma manifestação do Deus vivo" (W. A. Wordsworth). Ver #Lc 19.40. >Hc-2.12 c) Ai contra a violência (Hc 2.12-14) Cfr. #Mq 3.10 com o versículo 12. Habacuque estava, provavelmente, citando dessa passagem. Sangue pode significar sacrifícios humanos (ver #1Rs 16.34). O significado do versículo 13 é que, visto que somente Deus pode "guardar a cidade" (#Sl 127.1), todas as tentativas humanas para fazê-lo, por violentas que sejam, estão condenadas com antecedência ao fracasso. Para significa "apenas para satisfazer". O versículo 14 é uma citação livre de #Is 11.9. >Hc-2.15 d) Ai contra a desumanidade (Hc 2.15-17) Que lhe chegas o teu odre (15). Algumas versões traduzem: "que adicionas ali teu veneno". Omitindo-se uma letra no hebraico a frase tornar-se-ia "do cálice de tua fúria", o que dá melhor sentido. A violência cometida contra o Líbano (17). É incerta qual a invasão particular aqui referida, a não ser que o Líbano tenha sido o lugar mais próximo de Judá onde os caldeus já haviam penetrado. >Hc-2.18 e) Ai contra a idolatria (Hc 2.18-20) Que aproveitará a imagem de escultura? (18). Quanto ao sentimento da frase, cfr. a última metade do livro de Isaías. Mas o Senhor está no seu santo templo (20). "O profeta passa a fim de fazer contraste, do desprezo aos ídolos mudos e inúteis para o pensamento sobre o Deus vivo" (S. R. Driver). Assim, ficamos preparados para a teofania do capítulo 3. Hc-3.1 VII. VISÃO DE JULGAMENTO Hc 3.1-19 Os tempos verbais, neste capítulo, são incertos, e podem ser passados, presentes ou futuros. Parece que o profeta aproveita de todos os grandes relatos da história passada de Israel, particularmente do êxodo e da derrota dos cananeus no rio Quisom (#Jz 4-5). Ele invocava uma repetição daquelas portentosas libertações-aviva, ó Senhor, a tua obra (2). Ou então, temos aqui, uma expressão de sua fé (cfr. #Hc 2.4) na presente atividade de Deus, a despeito de tudo estar correndo adversamente (ver especialmente os versículos 17-19). Deus, mesmo agora, estava vindo ao julgamento. Tem sido posta em dúvida a autenticidade deste capítulo. Não há características especificamente caldaicas. As calamidades, nos versículos 17 e segs., antes parecem naturais do que devidas à ação do inimigo. No capítulo 2, a queda dos caldeus deveria ser provocada por causas naturais; no capítulo 3, por intervenção divina. Porém, isso é salientar por demais agudamente o contraste, e é mais aconselhável ver neste capítulo um exemplo daquela "fidelidade" mediante a qual o homem justo é capacitado a enxergar para além das frustrações presentes e contemplar a justiça eterna a operar incessantemente no mundo. Sigionote (1). Cfr. o título do #Sl 7. A raiz hebraica SGN significa "cambaleio"; portanto, trata-se de um cântico selvagem, entusiástico. Mas a Septuaginta, aqui, subentende "Neginote", isto é, "instrumentos de cordas", como no versículo 19. No meio dos anos (2). A Septuaginta tem: "no meio das duas criaturas", um interessante texto que, no Pseudo-Mateus, um dos evangelhos apócrifos, é considerado como uma profecia sobre a natividade, portanto, isso explica o boi e o asno, nas gravuras convencionais natalinas, perto do Salvador infante. >Hc-3.3 Deus veio de Temã (3). Quanto aos tempos verbais, ver anotação acima. Temã era um distrito de Edom; isso, pois, significa o próprio Edom. Cfr. #Am 1.12. Parã (3); parte da região do Sinai; cfr. #Dt 33.2. Ver também #Jz 5.4-5; #Sl 68.7-8. Raios brilhantes (4), provavelmente uma alusão aos lampejos dos raios. A vinda de Deus é pintada como uma tempestade que rolava partindo do sul, a cair sobre a Palestina e seus vizinhos. Mão (4); isto é, "lado", como em #1Sm 4.13, onde o hebraico diz lit., "pela mão do caminho". Ali (4); isto é, "naquele lugar". Mediu a terra (6). A Septuaginta diz: "a terra estremeceu". A sugestão é de um terremoto que acompanhou a tempestade. Cusã (7); uma tribo midianita ou árabe (cfr. #Nm 12.1). Ou poderia ser Cusã-Risataim (#Jz 3.8,10) ou o ribeiro de Quisom (#Jz 4.7). >Hc-3.9 O versículo 9 é extremamente obscuro. "Cerca de cem traduções diferentes têm sido feitas desse versículo" (Delitzsch). O sol e a lua pararam (11). Uma descrição poética de terem sido ocultos pelas escuras nuvens da tempestade. Tu saíste (13); algumas versões, em suas notas à margem, julgam que se trata aqui da prometida libertação de Israel das mãos do opressor, garantida por Deus, e que Miquéias considerava como já realizada, tão certa ela era, ainda que para ele ainda estivesse no futuro. Até ao pescoço (13) pode ser uma parte de um edifício; cfr. #Is 8.8. A cabeça dos seus guerreiros (14). Esta versão, como outras, segue a Vulgata. Há versões que traduzem: "A cabeça de suas vilas". Contudo, o hebraico, é incerto. O versículo 16 é novamente difícil. Quanto a descanse eu, Welhausen sugere: "consolar-me-ei". Essa certeza ou determinação em esperar quietamente que o dia de tribulação sobrevenha contra o agressor provavelmente explica a bela expressão que diz "vivendo pela fé" dada nos versículos 17-18. É o conhecimento que eventualmente, conforme ele diz, me alegrarei no Senhor, que capacitou Habacuque a suportar seu presente descontentamento. Desse modo ele descobre a resposta para sua pergunta inicial. >Hc-3.19 A última frase do versículo 19 aparece, na Septuaginta, como "para que eu possa conquistar por seu cântico". O cantor-mor era mestre da música no templo.